Tom Wolfe: um guia para entender o mestre do Novo Jornalismo

“Não tente imaginar Tom Wolfe, todo enfatiotado no seu terno branco, chapéu de aba de almofadinha, aos pés da cama do maestro, anotando o que lhe ia nos pesadelos de uma noite mal-dormida. O repórter não estava lá. Ele acabou de ensinar no ensaio sobre o Novo Jornalismo que abre este volume. Quanto mais você se encharcar do seu personagem, passar com ele muitos dias, melhor — mas nem sempre é possível captar uma cena com o suor dos olhos.”

Este é um trecho do posfácio que Joaquim Ferreira dos Santos escreveu para “Radical Chique & O Novo Jornalismo” (Companhia das Letras, 2005), coletânea de Tom Wolfe lançada pela coleção Jornalismo Literário.

Não só descreve o jornalista e cronista de uma América que se modificava vigorosamente nos anos 1960/1970, como também dá as cartas sobre o que Wolfe pregava com a expressão Novo Jornalismo.

No trecho acima, o maestro é Leonard Bernstein, e Ferreira dos Santos se refere à clássica reportagem “Radical Chique”, publicada em 1970 pelo suplemento “New York” (revista dominical do jornal “Herald Tribune”). Nela, Wolfe descreve como seu personagem acorda num dia de 1966 e depois prepara uma festa para receber os Panteras Negras. Era a elite novaiorquina exposta ao viés satírico de Wolfe.

Essa peça tem um dos lides mais famosos do Novo Jornalismo e é a síntese do que Wolfe pregou em “The New Journalism” (1973), o livro que é uma espécie de rosa dos ventos para quem quer se enveredar por esse gênero, com o Manifesto e uma seleção de reportagens publicadas em várias revistas.

Como Ferreira dos Santos escreveu, o jornalista não podia mais ficar apenas grudado em seu personagem nem se prender aos fatos. Para ele, aquele jornalismo modorrento já havia se esgotado, era preciso avançar.

E Wolfe é muito maior do que as as reticências e onomatopeias que inseriu em seus textos como forma de radicalizar a produção jornalística — claro que as figuras de linguagem chocaram e o marcaram, mas o que o cronista propõe vai além de colocar “hummmmmmmm”, “uhhhhuuuuuuu”, “brummmm” e “heeeeeeeeerrrrriii” nas frases.

Ele queria romance, interpretação, um mergulho na alma do seu objeto. Defendia que o jornalista tinha  técnica e a percepção para ir mais fundo do que um romancista e ser mais claro que um historiador ou ensaísta.

O Manifesto do Novo Jornalismo se inspirava no romance realista, de Balzac, Dickens e Gogol, inspirações assumidas de Wolfe. A construção da cena era essencial, e quando lemos o que essa geração produziu fica claro que a fronteira entre ficção e não ficção havia se rompido.

As aberturas poderiam muito bem ser a apresentação de um romance, de uma história ficcional. Mas a recriação de ambientes e diálogos imprimia o tom jornalístico necessário para se tornar uma peça de não ficção.

Se fosse possível resumir o Manifesto do Novo Jornalismo segundo Tom Wolfe, são quatro os pilares: construção cena a cena, recriação de diálogos completos, ponto de vista em terceira pessoa e detalhamento de tudo o que cerca os ambientes e personagens. O grande salto é que o repórter se mantém presente nas cenas, mas, para o leitor, ele é um observador invisível, com a técnica de um romancista.

Da geração de Gay Talese, Truman Capote e Norman Mailer, ele avançou no modelo que já estava consolidado no jornalismo americano, consagrado em publicações como “The New Yorker”, principalmente, e “Esquire”, e em nomes como John Hersey e Joseph Mitchell e H.L. Mencken, uma de suas inspirações.

Como uma segunda revolução, o Novo Jornalismo se confundia com romances — Capote teve que criar o rótulo “romance de não ficção” para seu “A Sangue Frio”.

Tom Wolfe, o Balzac da Park Avenue

Tom Wolfe, morto neste 15 de maio, foi mais do que um jornalista e cronista de época. Chamado de Balzac da Park Avenida, por unir a sofisticação daquele ecossistema aos elementos do romance realista francês, ele não ficou preso à não ficção.

Escreveu quatro romances — mas seus romances foram tão realistas que davam a impressão de serem reportagens, como é o caso de “Fogueira das Vaidades”, seu último grande trabalho em qualquer gênero, e “Eu Sou Charlotte Simmons”, um mergulho na vida sexual de universitários americanos. Em alguns dos seus escritos, os limites entre reportagem, crônica, ensaio e ficção estão embaralhados.

Talvez tenha se tornado personagem de si mesmo, e sua produção recente já não conseguia esconder uma recorrência a uma fórmula com sabor desgastado, como em “Ficar ou Não Ficar” (Hooking Up, 2000). Sua produção de maior valor está no período de pouco mais de 20 anos, entre 1965, quando publica “The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline”, e 1987, quando lança “Fogueira”.

A produção desse período forma o que de melhor ele escreveu. Fez um bem danado ao jornalismo, abriu a porta para escritores e repórteres trocarem de profissão sem traumas.

Tom Wolfe precisa ser lido. Hoje, sua obra faz mais sentido ainda, com as múltiplas linguagens disponíveis para o jornalista. Inspirar-se no que ele escreveu é daquelas atitudes que modificam uma trajetória.

No Brasil, sua obra até foi bem acolhida. Mas, hoje, pouca coisa está em catálogo. Esta seleção privilegia os livros em português (a leitura no original exige um domínio fluente do inglês), por isso, vale pesquisar na Estante Virtual — quem lê em inglês pode se aventurar em qualquer coisa que ele tenha escrito no período destacado logo acima.

Para completar, o melhor obituário de Tom Wolfe é o do The New York Times.

À lista.

Radical Chique & O Novo Jornalismo (2005)

Esta é uma coletânea que pesca as partes mais importantes de três livros de Tom Wolfe: o misto de manifesto e coletânea jornalística The New Journalism (1973), The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline (1965) e Radical Chic & Mau-Mauing the Flak Catchers (1970).

Assim, o leitor tem não só as bases do que seria chamado de jornalismo literário como também seus exemplos mais clássicos. Se tiver que comprar um livro de Wolfe, este é a sua escolha. Da Companhia as Letras.

Décadas Púrpuras (The Purple Decades, 1982)

Outra coletânea, desta vez, com uma oferta maior de reportagens. Há trechos de livros também, como “Os Eleitos”. É bem ampla, o que dá uma visão mais profunda do trabalho de Wolfe.

A edição tem como atrativo cartuns para cada capítulo. Da L&PM.

A Fogueira das Vaidades (The Bonfire of the Vanities, 1987)

O único romance da lista, mas que é um dos melhores retratos de uma época. É também a primeira experiência de ficção em livro do jornalista. Um jovem executivo atropela um negro e vê sua vida se tornar refém da polícia, da família e da Justiça. O autor satiriza as relações de poder.

No Brasil, o livro teve prefácio de Paulo Francis. Virou filme dirigido por Brian de Palma em 1990. Da Rocco.

Os Eleitos (The Right Stuff, 1979)

Para muitos, o melhor trabalho de Wolfe. Ele retrata as histórias dos astronautas do Projeto Mercury, programa da Nasa. Nada escapa ao olhar do escritor: o autor mergulha na vida dos participantes e de suas famílias.

Wolfe partiu de um interesse de entender a motivação de astronautas de entrar numa nave e viajar ao espaço. Entregou um pedaço da história recente dos Estados Unidos e uma profunda investigação humana.

Também virou filme, em 1983, dirigido por Philip Kaufman. Da Rocco.

A Palavra Pintada (The Painted World, 1975)

Aqui, Wolfe mostra que o sarcasmo também cabe no Novo Jornalismo. São textos que tratam da arte moderna e as teorias que cercam obras do final do século 19 ao 20. Ele aponta os dedos para críticos e questiona como eles avaliam as obras.

Wolfe mudou a forma como se lia a crítica de arte com esse livro. Da Rocco.

O Teste do Ácido do Refresco Elétrico (The Electric Kool-Aid Acid Test, 1968)

Tom Wolfe entra no mundo da cultura hippie e das drogas. Tal qual um Gay Talese, ele acompanhou por um tempo um grupo chamado Festivos Gozadores. A proposta desse coletivo era divulgar o uso do LSD durante viagens feitas de ônibus pelos Estados Unidos. A contracultura ganhava seu retrato definitivo.

Espécie de jornalismo gonzo, traz as principais experimentações de Wolfe e é o melhor exemplo do que pensava para o seu Novo Jornalismo. Da Rocco.

Ricardo Ballarine
Ricardo é entusiasta de um jornalismo inovador e que explora todas as possibilidades narrativas. Dedicou parte da carreira a treinar e capacitar jornalistas. Paulista de origem, hoje vive em Belo Horizonte (MG). Não só tem fé no jornalismo como acredita que ainda há um caminho imenso a ser explorado. Fale com ele no [email protected]