Mentoria BRIO: para Sílvia Lisboa e Alexandre de Santi, quem deseja abrir um negócio próprio precisa ser versátil

Sócios na Agência Fronteira, Sílvia Lisboa e Alexandre de Santi são também mentores do BRIO. Sílvia é mestre pelo PPGCOM/UFRGS e já trabalhou na revista Amanhã e no jornal Zero Hora.

Alexandre trabalhou apurando e editando reportagens e revistas para Superinteressante, Galileu, Saúde, Marie Claire, G1, UOL, entre outros. Ele também coordenou projetos para marcas como Bauducco, Unisinos e Olympikus. Ambos são autores do livro “Cura Espiritual – Uma investigação”.

Nesta entrevista, eles contam um pouco sobre quais eram os maiores medos e expectativas ao abrir a Agência Fronteira.

Por que você escolheu o jornalismo?

Sílvia Lisboa – Eu não lembro bem quando se deu esse estalo (risos). Mas hoje vejo que sempre tive interesses por muitos assuntos e realidades distintas da minha. E meus pais sempre foram leitores ferrenhos de jornais e revistas, que circulavam pela casa tanto quanto os livros. Me fascinava e ainda me fascina a possibilidade de entrar em contato com diferentes mundos e poder narrar essas histórias com atenção aos detalhes e à forma. Eu tinha prazer de ser fisgada por uma reportagem e achava fascinante o trabalho do repórter. O que eu mais amo no jornalismo é justamente isso: o jornalismo é uma forma de a gente conhecer e entender o nosso mundo e a gente mesmo.

Alexandre de Santi – Eu cresci numa casa de comunicadores. Minha mãe trabalhou em grandes agências de publicidade de Porto Alegre e meu pai na Gazeta Mercantil e na Agência Estado, também em POA. Não escolhi a profissão POR CAUSA deles, mas a gente sempre teve acesso a conteúdo de ótima qualidade dentro de casa, seja em forma de assinatura dos grandes jornais e revistas do país, ou internet ou TV por assinatura (quando isso era muito novidade), ou pela ótima discoteca do meu pai. Com esse cardápio à escolha, acho que me encantei com esse mundo.

O que você mais ama no jornalismo?

Alexandre de Santi – Eu amo boas histórias. Principalmente de não-ficção. Sejam em reportagens, livros ou documentários. Adoro a narrativa se desenrolando e revelando coisas novas. Seja como leitor ou jornalista, curto a sensação de descobrir algo que eu não sabia. Essa sensação de tomar contato com algo que aconteceu ou está acontecendo no mundo – e que tem sabor de novidade -, isso é muito importante pra mim. Não no sentido de “notícia”, que é algo que não me encanta muito. Mas de saber algo novo sobre o mundo.

Sílvia, para você, o jornalista dos novos tempos precisa “ser versátil, gestor da própria carreira e fiel aos fundamentos do jornalismo, como independência, verdade e interesse público”. Como ser gestor da própria carreira? Que dicas você dá?

Sílvia Lisboa – Para ser gestor da própria carreira, você tem de saber que depende de você entregar o trabalho o mais redondo possível para que o editor não perca tempo tentando entender o que você escreveu. A maioria dos editores não gosta de ter trabalho (risos).

É preciso ser muito organizado com prazos, com precisão e com a qualidade da reportagem e estar disponível para dúvidas e ajustes depois da entrega. É importante se autoconhecer também, entender seus pontos fortes e fracos para saber se impor prazos e/ou saber quando precisa pedir ajuda para outros jornalistas quando você tem dúvidas se está no caminho certo ou não ou se não sabe por onde começar uma matéria.

Uma outra “dica” sobre ser gestor da própria carreira, que não vale apenas para quem quer ser frila, mas para quem trabalha em veículos, é não perder de vista seus interesses no jornalismo, naquelas pautas e projetos que você quer ver acontecer, os sonhos que se acalenta desde a faculdade. Tem de ir trabalhando neles aos poucos e ficar atento às oportunidades para colocar ele na rua. Pode demorar, mas o recado é ser persistente.

Alexandre, para você, o jornalista dos novos tempos precisa ter “Versatilidade, uma boa dose de espírito empreendedor e acreditar pra valer na missão do jornalismo”. Qual é a missão do jornalismo na sua opinião?

Alexandre de Santi – Narrar as coisas que acontecem no mundo de forma confiável. Acho que a missão do jornalismo está tanto no conteúdo (a história em si) quanto na forma (a maneira que vamos contar essa história). A forma tem de convencer o leitor que aquela história joga luz sobre fatos que realmente aconteceram em algum lugar do planeta.

Todo mundo conta histórias. O porteiro do prédio conta causos sobre as coisas que acontecem no quarteirão. Acho que a missão número 1 do jornalismo é contar o causo do porteiro de um jeito que o quarteirão inteiro confie na história – e que não seja confundida com mito ou fofoca. Melhor ainda se o jornalista contar essa história de forma envolvente, dando algum tipo de prazer para o público naquela experiência (seja esse público leitor, espectador ou ouvinte) – essa é a missão número 2 na minha opinião.

Além de ser um serviço importante para regulação das democracias, também acredito que o jornalismo é uma forma de entretenimento, de passatempo. E a gente devia se orgulhar disso, em vez de ter vergonha desse aspecto da profissão. As pessoas investem seu tempo livre com jornalismo, para descobrir e entender o mundo, e isso é poderoso e valioso. Temos que honrar esses minutos que as pessoas gastam com a gente.

Você pode contar um pouco da sua experiência como bolsista da bolsa Jack F. Ealy de Periodismo Científico na Universidade da Califórnia de San Diego (EUA)?

Sílvia Lisboa – Eu consegui a bolsa enviando as matérias sobre ciência e saúde que fazia para um caderno especializado no tema no jornal Zero Hora, onde fui repórter durante cinco anos. Era uma bolsa voltada a jornalistas da América Latina e fui a única brasileira selecionada. A turma ficou hospedada nos dormitórios dentro da Universidade da Califórnia em La Jolla durante duas semanas de julho. O curso consistia em palestras com cientistas nível prêmio Nobel em ciências biológicas. Ocorreram vários debates e coletivas em espanhol e inglês. Foi fascinante conhecer de perto autores das pesquisas que eu citava nos textos.

Você acha que a mentoria é importante para profissionais do jornalismo? Se sim, por quê?

Alexandre de Santi – Claro, acho muito importante. Isso era muito comum no ambiente de redação de antigamente. Era uma atividade invisível: você aprendia com jornalistas mais experientes conversando no café, no bar ou só circulando na redação, ouvindo algumas histórias e dicas por acaso. Com a crise, muitos jornalistas não estão tendo a possibilidade de passar por essas experiências. A mentoria recupera um pouco disso. Jornalismo é um ofício que se transmite a partir da experiência profissional dos mais antigos – mais ou menos como é a carpintaria. Não adianta pegar um manual de jornalismo da biblioteca, ler e achar que vai conseguir colocar tudo em prática. Claro que manuais e aulas ajudam, mas o jornalismo tem uma natureza cheia de nuances que os livros não dão contam. Tem aprender fazendo, e esse aprendizado melhora e se acelera se pudermos contar com o conhecimento prático dos mais velhos.

Quanto tempo durou o planejamento da Fronteira?

Alexandre de Santi – Foi tudo muito rápido, então não fizemos um planejamento pesado. Hoje a gente até se arrepende de não ter levado esse lado mais a sério. Eu fiz um planejamento meio que invisível para a Sílvia, de colocar as coisas no Excel e pensar se valia a pena, se era viável.

Ao longo de alguns meses, enquanto eu estava trabalhando na Cartola, insatisfeito com algumas coisas, é claro, por isso saí, fui fazendo devagarinho esses planejamentos. Principalmente quando estava chegando mais perto da saída da Sílvia do mestrado. Ela precisava ter uma vida profissional e não queríamos que isso significasse ela ter que voltar para o jornal. Quando a gente decidiu que era uma boa, não houve muito um planejamento formal. Já tínhamos um pouco de experiência disso. Em 2002, 2003, 2004, a Silvia trabalhou com grande sucesso como jornalista freelancer. Ela tinha uns contatos e trabalhos bem legais.

Sílvia Lisboa – Era um jornalismo especializado. Então, eu já tinha experiência de trabalhar sozinha em casa.

Alexandre de Santi – E eu já tinha sido jornalista freelancer e feito trabalhos bem legais, que tinham me orgulhado. Eu gostava do ritmo – não do ritmo de faltar dinheiro, coisas que todo freelancer passa – mas eu gostava da função de estar pensando em pauta e me sentir mais autônomo, poder traçar a minha trajetória. Conto isso para dizer que quando chegou lá em 2011, no período que a gente começou a pensar mais na Fronteira, tínhamos a memória de ser freelancer no passado e sabíamos que funcionava.

Sílvia Lisboa – Foi engraçado porque durante muito tempo, as pessoas nos falavam meio espantadas “Que coragem vocês tiveram de largar um emprego em uma redação!” Talvez eles não soubessem toda a crise que ocorreu com as redações de lá para cá, mas para nós era um pouco o contrário, a gente tinha mais medo de ficar nas redações. Para emplacar uma pauta era muito complicado porque era toda uma estrutura, todos os chefes que a gente tinha que convencer. Eram várias camadas de hierarquia. As redações têm muito pouco espaço pra você ascender na carreira como repórter. Tem um ou dois repórteres especiais e muitos editores. Eu sou fascinada pela reportagem, então não me via dentro de uma estrutura como essa. E, às vezes, por ser jornalismo diário, não existia muito a mentalidade de reflexão. É evidente que tem reportagem, mas a gente achou que ia ser mais complicado.

Quais eram os maiores medos de vocês?

Alexandre de Santi – O medo intrínseco a viver desse jornalismo independente que é achar que não vai ter trabalho suficiente para pagar as contas. Acho que quanto a isso, não temos muito o que reclamar porque sempre tivemos bastante trabalho. Eu tinha medo e ainda tenho de achar que a crise do jornalismo iria empurrar muito jornalista para ser freelancer, teríamos muita competição. E estamos vivendo isso agora.

Também tenho medo de não me atualizar na velocidade que o mercado exige. O mercado de comunicação, não só o de jornalismo, está em transformação. Desde que a gente começou nessa, foram muitas coisas que as pessoas acreditaram “Ah, isso vai ser o futuro!”. E algumas dessas ondas tu vais ter que embarcar porque pode significar a solução do teu futuro. E tem umas que é preciso ter sabedoria de não embarcar porque pode ser um barco furado. A gente teve medo de não conseguir navegar nesse mar de novidades.

E as maiores expectativas?

Alexandre De Santi – Eu tinha expectativa que estando em uma estrutura bem enxuta, ia me sentir mais livre para poder aderir a projetos que eu gostasse. Coisas que eu tivesse entusiasmo em fazer, seja uma reportagem, seja um documentário. E de fato foi. Comparado com a Zero Hora e com a Cartola, eu tive muito mais essa liberdade. Acho que eu poderia ter feito mais coisas, mas também acho que conseguimos nos engajar em projetos que a gente estava a fim. Tinha outra expectativa que, sendo uma empresa independente com alta capacidade de flexibilidade, poderíamos nos associar com facilidade a projetos inovadores de jornalismo. Isso aconteceu pouco. Acho que muito em razão da dificuldade que esses negócios tiveram para se estruturar – muitos deles nasceram e morreram.

Sílvia Lisboa – Uma expectativa também era de não ser só jornalistas freelancer, que trabalhavam sob demanda de revistas e sites. Mas também jornalistas que pudessem propor coisas que eram do nosso interesse. E isso a gente conseguiu algumas vezes. Conseguimos emplacar pautas e projetos que nasceram aqui. Conseguimos formas alternativas de financiar, como crowdfunding, ou termos matéria financiada por uma ONG americana. Agora tivemos um projeto apoiado no Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Vocês teriam alguma dica para alguém que planeja abrir um negócio próprio?

Alexandre de Santi – Acho que fazer um planejamento, nem que seja light, é importante. Por mais que a gente não tenha feito.

Sílvia Lisboa – Acho que tem que fazer uma reflexão sobre “O que você não gostaria de fazer”. Às vezes  a gente tem a tendência de fazer o que oferecer e vai desviando do foco. Tem que ter clareza e perseguir isso. Além disso, sabíamos que era importante para as revistas que buscam freelancers poderem contar com freelancers sempre ou quase sempre. Tínhamos uma ideia que era criar uma estrutura enxuta que nos permitisse atender sempre que as revistas nos procurarem. Que pudessem dizer: “Vamos passar para a Fronteira porque eles vão entregar redondo”.

Entregar o texto, o roteiro, o produto o mais bem acabado também é importante. E, também, se assessorar com pessoas que tu admire o trabalho.

Alexandre – Não pode ter medo de Excel, de fazer gestão, de fazer finanças. É meio óbvio no mundo do empreendedorismo mas não é tão óbvio no mundo do jornalismo.

Também acho que é importante prestar atenção e ter método para poupar tempo.

E outra coisa importante é ser versátil. É claro que no momento em que tu começa a gravitar em torno de um assunto, mais trabalhos daquele assunto vão aparecer. Mas é preciso estar disposto a aprender coisas novas e a escrever para revistas que tu nunca imaginaste.

É necessário estar aberto a fazer trabalhos que tu não tinhas imaginado fazer porque isso pode significar uma nova fonte de receita. Recentemente, começamos a fazer um trabalho de checagens pra piauí, que nunca tínhamos imaginado fazer: pegar os textos dos outros e checar as informações que apuraram. E tem sido um ótimo trabalho pra nós.

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Para fazer mentoria com Alexandre de Santi e Sílvia Lisboa

Alexandre de Santi ainda tem uma vaga disponível para o programa de Mentoria. Ele é especializado em jornalismo freelancer e independente e jornalismo de profundidade. Também é focado em reportagens especiais, jornalismo científico, edição e projetos de conteúdo para marcas.

Já a mentoria com a Sílvia Lisboa está com as vagas esgotadas. Mas você pode entrar para a lista de espera. Os interesses dela são Jornalismo freelancer, reportagens especiais, jornalismo científico.

Lara Mizoguchi
Ama conhecer novas histórias e poder contá-las. É gaúcha e morou cinco anos no Rio de Janeiro, onde trabalhou no jornal Extra e com marketing digital. Atualmente, cursa um mestrado em Estudos Culturais, em Bordeaux, na França. Sua utopia é que o jornalismo seja capaz de transformar – para o bem – o mundo. Fale com ela no [email protected]