Patrícia Campos Mello: ‘A gente tem que estar pronta para fazer tudo”

“Fui atropelada por essa história.” Patrícia Campos Mello assim se refere ao caso de amor de dois curdos sírios que se conheceram, se apaixonaram e se casaram em plena guerra civil na Síria e pela disputa por territórios reivindicados pelos curdos.

Ela relata esse romance em “Lua de Mel em Kobane” (Companhia das Letras), mas não fica presa ao enlace amoroso. Essa é uma história  que surgiu por acaso, e Patrícia Campos Mello avaliou que precisava de mais para transformá-la em um livro.

A trajetória do livro começou com uma imagem. A jornalista da “Folha de S.Paulo” viajou para a Síria para fazer reportagens sobre a família de Alan Kurdi, o garoto sírio que morreu em uma praia na Turquia quando tentava, com os pais, chegar à Grécia.

A foto do menino de 3 anos afogado chocou o mundo e acendeu o alerta para a crise dos refugiados, uma tragédia que envolvia Síria, Iraque, Turquia e Estado Islâmico. Incomodada com aquela imagem, Patrícia foi até a casa dos avós da criança e no caminho conheceu Barzan Iso e Raushan Khalil.

Exilados, ela na Rússia, ele na Turquia, os dois se conheceram pela internet e engataram um caso de amor em meio à disputa pelos territórios curdos. Casados, foram peças ativas na resistência de Kobane, cidade que fica na fronteira com a Turquia, tendo Alepo ao sul.

Além da disputa territorial entre curdos, sírios, turcos e extremistas, a repórter também relata como as mulheres tiveram uma participação importante no conflito e foram responsáveis pela tomada de Kobane. A guerra civil já não era mais um conflito de duas partes  — transformou-se em uma história que começou na Primavera Árabe e desembocou na resistência feminina.

Esse é o contexto que Patrícia Campos Mello tinha pela frente, uma história de amor que surge e respira na guerra brutal. O livro, já indicado em lista publicada em post anterior, não se concentra, por isso, em Barzan e Raushan, e a jornalista refaz a história recente desse conflito para entregar ao leitor uma reportagem de fôlego.

E foi isso o que me motivou a conversar com ela, para entender como a história surgiu e qual foi a necessidade de contextualizar — e é nesse ponto que o livro se impõe: “Eu não tinha como contar a história de amor sem explicar o contexto histórico e geopolítico”, diz Patrícia em entrevista ao blog.

Na conversa, ela fala sobre mulheres em zonas de conflito, o caminho para cobrir guerras e quais as características de uma jornalista que cobre esse assunto — a resposta é mais simples do que você supõe.

Patrícia Campos Mello com Raushan Khalil e Barzan Iso| Foto: Arquivo pessoal

Em que momento você percebeu que tinha uma história do casal de Kobane?
Assim que entrei na Síria e conheci o casal, os dois começaram a contar a sua história e seus olhos brilhavam. Percebi que havia uma puta história. A gente recebe todos os estereótipos da vida em guerra, mas a vida dessas pessoas é mais complexa, não se resume à desgraça e à morte. Achei surpreendente encontrar uma história de amor no meio desse monte de desgraça.

O livro não fica preso à relação do casal, mas se envereda pela história recente da região, com os conflitos entre Turquia, Síria e Estado Islâmico. Como você chegou a esse formato?
Eu não conseguiria explicar a vida deles, tudo o que eles passaram e suas lutas sem explicar a situação. Eu tentei fazer com que as pessoas se interessassem e entendessem. Não tinha como contar a história de amor sem explicar o contexto histórico e geopolítico.

E por que a foto que a motivou ficou concentrada aos extremos do livro?
É uma pergunta difícil. A foto foi o que me levou para a Síria. Eu conheci os avós da criança, foi emocionante, mas aconteceu o que a palavra inglesa serendipity define [capacidade de descobrir coisas importantes por acaso]. Fiz as reportagens para a Folha sobre os avós, mas no meio do caminho eu encontrei essa outra história.

A foto do menino Alan Kurdi, que motivou Patrícia Campos Mello a viajar para a Síria | Foto: Dogan News Agency/Associated Press

As mulheres tiveram grande importância na defesa e retomada de Kobane. Como você avalia esse movimento?
As mulheres tiverem uma enorme importância na defesa de Kobane e elas têm importância em Rojava inteiro (Curdistão sírio). É uma coisa bacana. Os curdos têm copresidente para tudo, sempre um homem e uma mulher em todas as posições de liderança. É muito interessante esse ativismo das mulheres curdas. Ao mesmo tempo, elas lutam ainda por coisas básicas, como a questão do casamento arranjado, mas a proeminência política é algo bacana de se ver.

O que te levou a se tornar uma correspondente internacional? E por que preferiu a cobertura de zonas de conflitos e tragédias?
Eu nunca pensei que faria esse tipo de cobertura. Eu comecei como jornalista cobrindo Cidades, fazendo matéria de buraco de rua, polícia, hospital. Depois, eu morei fora muitos anos, fui correspondente em Washington do Estadão e acabei tendo experiência internacional. Fiz muita matéria de guerra no Iraque e Afeganistão, mas pelo ponto de vista dos americanos, nas bases de treinamento. Isso foi despertando o interesse de saber o que acontecia lá [Oriente Médio], pois a gente tem essa visão da realidade tão filtrada. E isso provocou o interesse de querer ir para esses lugares.

Quais as dificuldades que uma jornalista enfrenta em coberturas de guerra?
Eu sempre gosto de dizer que ser mulher mais ajuda do que atrapalha nesses lugares. A gente tem acesso a mais de 50% da população que os homens não têm. Essas mulheres, nos lugares mais conservadores, não vão se abrir nem falar com jornalista homem. Então, a gente tem um leque muito mais amplo de matérias que podemos fazer. A gente consegue ganhar mais a confiança, intimidade, conversar mais sobre o dia a dia e a família. Em alguns lugares, a mobilidade é mais reduzida, você não pode andar sozinha, sem um homem. Esse é o lado ruim da história.

Quais as características que uma jornalista que queira ser correspondente de guerra deve ter?
O conceito de correspondente de guerra é meio equivocado. Você tem que ser jornalista, ponto. Você tem que cobrir tudo. Eu não faço só guerra, só conflito. Acho meio pretensioso pessoas que se autointitulam correspondente de guerra. Eu faço tudo, como as manifestações de 2013. A gente tem que estar pronta para fazer tudo.

E como se preparar para ser uma correspondente?
Sendo um bom repórter. Da mesma forma que alguém conta histórias da periferia da cidade, tem que contar histórias da África, de conflito no Oriente Médio, são as mesmas coisas. Você só tem que entender as especificidades culturais de cada local, entender o que afeta as pessoas e o que as move.

Suas reportagens revelam um olhar atento ao humano, que vai além da narrativa de guerra. O que te interessa em coberturas desse gênero?
Eu estou menos interessada nas especificidades técnicas e bélicas de uma guerra do que nas histórias e da vida das pessoas. Me interessa saber como é a vida apesar da guerra. Como as pessoas tentam tocar a vida em meio a um ambiente de conflito, que pode explodir a qualquer minuto. Quero saber se elas têm tempo para assistir TV, se elas conseguem se divertir de alguma maneira, como elas comem, como fazem para dormir à noite. São essas pequenas coisas que você não consegue ver numa agência de notícia. Pode ser utópico, mas o objetivo é se colocar um pouco no lugar do outro e entender o que ele está passando.

Barzan e Rashuan com soldados que enfrentaram o Estado Islâmico em Kobane | Foto: Arquivo pessoal

Tem ideia de escrever um novo livro?
Eu ainda não tenho ideia de um novo livro. Esse livro meio que me atropelou, foi uma história maravilhosa que encontrei por acaso. E te confesso que foram dois anos de trabalho intenso, é como um novo emprego. Como já tenho dois empregos e cuido de um filho pequeno, é difícil conseguir encaixar um novo livro. Mas a gente nunca sabe quando uma história sensacional vai atropelar a gente, no Brasil ou lá fora.

Qual cobertura você gostaria de fazer?
Eu gostaria de voltar para o norte da Síria, especialmente em Afrin, região curda que está sendo atacada pelo exército turco. Eu acho importante não deixar essas histórias caírem no esquecimento, sabe? Depois que o Estado Islâmico foi derrotado, as pessoas pararam de prestar atenção pois não existe mais ameaça ao mundo ocidental, então “deixa os curdos se ferrarem porque não importa mais”. Essa é uma história que eu gostaria de cobrir, mostrar que a guerra continua rolando. Mesma coisa em Ghouta Oriental, na periferia de Damasco, que tem sido cercada pelo [Bashar al] Assad, com presença de extremistas. Só que lá não dá para dizer que é uma coisa maniqueísta, os rebeldes contra o governo. No meio dos rebeldes, você tem extremistas, mas também civis, que estão morrendo de fome ou bombardeados.

Alguma história no Brasil?
Gostaria de passar um tempo em Roraima com os refugiados venezuelanos, acho que é uma história importante. Temos obrigação de acolher e cuidar bem dessas pessoas. É um teste para o governo e para a índole dos brasileiros. Espero que a gente receba os venezuelanos melhor que os haitianos, que a gente tenha aprendido alguma coisa.

Quais jornalistas foram uma inspiração?
Patrick Cockburn [do inglês The Independent] é um dos caras que mais entendem de Oriente Médio hoje em dia. Eu o conheci por acaso na fronteira da Síria com o Iraque. [O fotógrafo] Maurício Lima tem feito um trabalho maravilhoso com refugiados. São duas inspirações. E meu pai é uma enorme inspiração de vida.

Bazan Iso e Raushan Khalil em Kobane | Foto: Fabio Braga

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Yan Boechat, jornalista com experiência de cobertura de zonas de conflitos, é um dos mentores do BRIO. Quer saber mais? Clique aqui!

Ricardo Ballarine
Ricardo é entusiasta de um jornalismo inovador e que explora todas as possibilidades narrativas. Dedicou parte da carreira a treinar e capacitar jornalistas. Paulista de origem, hoje vive em Belo Horizonte (MG). Não só tem fé no jornalismo como acredita que ainda há um caminho imenso a ser explorado. Fale com ele no [email protected]