Mentoria BRIO: para Claudio Angelo, o jornalismo permite aprender uma coisa nova por dia

Especializado em ciência e meio ambiente, Claudio Angelo é coordenador de Comunicação do Observatório do Clima. Ele também é colaborador bissexto da revista Nature em Brasília. Foi repórter e editor de Ciência da Folha de S.Paulo (2000-2012). Como ele mesmo diz, é “(de)formado” em jornalismo pela Universidade de São Paulo e ex-bolsista de Knight de Jornalismo Científico no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Ciência, com o livro “A Espiral da Morte” (Cia das Letras, 2016), Claudio Angelo é considerado um dos maiores especialistas em meio ambiente da imprensa brasileira. Conversamos com ele, que é um dos Mentores do BRIO, para entender como é a sua relação com o jornalismo. E, também, o que ele espera da mentoria.

O que você mais ama no jornalismo?

Mais do que tudo, mais do que a fama e o dinheiro, o que eu amo no jornalismo é a possibilidade de aprender uma coisa diferente por dia. Acho que nenhuma outra profissão permite isso.

Que conselho daria para alguém que está começando na profissão?

Eu tive muita sorte com chefes na minha carreira. Dois deles me disseram duas coisas que eu levarei comigo para sempre e acho que vale repassar para quem está começando:

“Nada que é escrito sem esforço é lido com prazer”. Por mais que o jornalismo tenha mudado, no fundo ainda lidamos com linguagem. E a linguagem, começando pelo tratamento dado à língua, não é algo que deva ser menosprezado. Uma reportagem precisa ser escrita com sofrimento. Um roteiro de vídeo precisa ser escrito com sofrimento. Um tuíte precisa ser escrito com sofrimento (vá lá, “sofrimentinho”). Esse sofrimento inclui uma apuração que dê ao jornalista mais elementos para sofrer: vários pontos de vista, contraditório, detalhes, números, comparativos. Eu sei que tenho uma boa matéria na mão quando fico me descabelando para decidir o que vou deixar de fora.

“Matéria, em inglês, é story”. Não importa a plataforma, jornalistas são contadores de histórias. Então a história é o princípio e o fim de todas as coisas. A velocidade da notícia hoje nos tenta a empilhar informações. Mas o melhor jeito de comunicar coisas a seres humanos, ainda mais sobre assuntos complexos, como ciência, é contar uma história – de preferência com outro ser humano como personagem, porque isso cria uma conexão imediata.

E para quem já é experiente?

Ah, a gente se ferrou, vai abrir um bar, rsrs.
Sério agora: pessoas da minha geração, na faixa dos trinta-e-muitos a quarenta-e-tantos, foram as últimas testemunhas de um jornalismo no qual o cara ia para a redação todo dia, trabalhava com carteira assinada, publicava suas matérias num negócio de cheiro forte que era entregue de kombi na casa das pessoas todo dia de manhã e só precisava se preocupar com isso de novo na manhã seguinte. Nenhum desses elementos existe mais, a começar da redação. Eu vejo os náufragos desse tsunami fazendo três coisas: os que não têm muitas contas a pagar viram escritores; os que têm muitas contas a pagar, como eu tinha quando fui demitido, pegam o primeiro emprego que aparece em relações-públicas (frequentemente ganhando muito mais); um terceiro grupo está vendo que não tem emprego, então começa a inventar emprego. Essa pororoca de start-ups jornalísticas que acontece hoje no Brasil pode resultar num caminho para a tão necessária reinvenção da profissão. Não é porque os jornais “acabaram” (e deixarei entre muitas aspas, porque os quatro ou cinco coleguinhas que ainda trabalham em redação podem ficar ofendidos) que a necessidade de jornalistas na sociedade diminuiu. Ao contrário. Então, sei lá, pra quem não quiser abrir um bar e não tiver dinheiro para aplicar em bitcoin, eu acho que vale a pena olhar mais para esse novo mercado que começa a se abrir.

Para você, o jornalista dos novos tempos precisa “Dominar as tecnologias que mudaram definitivamente a profissão, sem esquecer três coisas fundamentais: encontrar as informações, conectá-las e contar uma história”. Como um/a jornalista pode dominar as tecnologias? O que ele/ela precisa fazer? Você indica algum curso, por exemplo?

Não vou indicar ninguém para não melindrar os amigos, mas existem várias iniciativas de jornalismo de dados pipocando por aí. Vale fazer uma procura. A outra coisa, a que eu pretendo me dedicar este ano, é visualização de dados. Softwares como o Tableau têm tutoriais interessantes, precisa de uma certa paciência, mas vale a pena. Em todo caso, é mais fácil que aprender a tocar piano. Mas existe uma coisa ainda mais básica que todo jornalista deveria saber fazer, que é operar Excel.

Você acha que a mentoria é importante para profissionais do jornalismo? Se sim, por quê?

Nos velhos tempos de CLT, “mentoria” era tomar uma cerveja com aquele seu colega mais velho depois do expediente ou ter uma DR com seu editor no pescoção. Para os absolutamente sortudos, fazer uma cobertura qualquer com algum dos seus ídolos de faculdade. Por mais que o ambiente das redações fosse insalubre, sempre havia muitas mentes brilhantes juntas no mesmo espaço, então havia transferência de conhecimento. Frequentemente na porrada, mas havia. Esse ambiente foi desestruturado, mas a necessidade de propagação dessa “tradição oral” do jornalismo continua. Porque, como qualquer profissão, jornalismo não tem um manual que você possa aplicar e se dar bem (talvez mais ainda do que outras profissões, porque um engenheiro de fato aprende na faculdade coisas que ele vai usar para construir prédios; nós nem isso, mas esta é outra história). Só se aprende fazendo e pela experiência dos outros. E a mentoria é importantíssima para prover essa segunda parte.

Qual é a sua expectativa com a mentoria do BRIO?

Fomentar o interesse de jornalistas por ciência e meio ambiente e de cientistas por jornalismo.

Como você pretende ajudar os/as jornalistas?

Fazendo-os sofrer! Ajudando-os a entender o que torna um texto bom de ler e compartilhando com eles elementos do pensamento científico que são fundamentais para o jornalista, mesmo que ele trabalhe em outras áreas.

***

Claudio Angelo é especialista em ciência, meio ambiente, política internacional, ONU, política externa brasileira, Amazônia, mudanças climáticas, reportagem-ensaio, texto, construção de narrativa. Quer fazer sua mentoria com ele? Clique aqui.

Na nossa Mentoria, o cliente participa de uma reunião virtual mensal de duração de 45 minutos com o mentor escolhido, além de ter a possibilidade de fazer consultas pontuais via e-mail ou WhatsApp. No pacote também estão incluídos uma análise profissional completa, curso The Independent – Como virar uma máquina de pautas – e publicar todas elas, networking com jornalistas do Brasil inteiro e auxílio para candidatura a vagas.

Lara Mizoguchi
Ama conhecer novas histórias e poder contá-las. É gaúcha e morou cinco anos no Rio de Janeiro, onde trabalhou no jornal Extra e com marketing digital. Atualmente, cursa um mestrado em Estudos Culturais, em Bordeaux, na França. Sua utopia é que o jornalismo seja capaz de transformar – para o bem – o mundo. Fale com ela no [email protected]