Mentor do BRIO dá o caminho para entender jornalismo de dados

Já convidamos especialistas em ética, tecnologia e inovação e checagem de fatos para indicar livros essenciais sobre essas áreas. Agora, chegou a vez do jornalismo de dados.

Espécie de bola da vez do jornalismo, esse gênero cresce porque alia tecnologia ao papel fundamental de todo profissional: investigar.

Planilhas, códigos, cultura aberta, hackerismo, números: esse é o universo do jornalista de dados. Investigar arquivos de Excel, raspar dados, interpretar e criar uma visualização que seja possível para o leitor compreender a informação são algumas das atribuições desse profissional.

A fim de iluminar o caminho desse gênero, convidamos Rodrigo Menegat para indicar obras necessárias para o jornalismo guiado por dados. A seleção tem livros, post de blog, tese e áudio.

Formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), ele se especializou em jornalismo de dados na Universidade de Columbia, em Nova York. Hoje, trabalha na equipe de infografia do Estadão. Além, claro, de ser um dos mentores do BRIO.

Menegat assim define o jornalista que trabalha com dados: “Um repórter que conta histórias com números e gráficos. Sabe aquele papo de correr atrás da notícia e revelar coisas que estão escondidas, mas deveriam ser públicas? É parecido, só que antes de gastar a sola do sapato”.

Você se interessa por jornalismo de dados? Então, esta lista é para você.

Menegat assume a partir daqui.

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Embora o frisson por jornalismo de dados tenha chegado com força ao Brasil e no exterior esse gênero da profissão já esteja bem consolidado, ainda é difícil achar leituras sobre o tema. Como trata-se de uma área bastante técnica, abundam manuais e tutoriais para quem quer colocar as mãos na massa e aprender na prática. Ainda sinto falta, porém, de textos que apresentem seus fundamentos teóricos, culturais e históricos.

Essa lista tenta fazer uma curadoria justamente disso: recomendar leituras para entender de onde surgiram esses repórteres maníacos por tabelas e códigos, como eles encaram a profissão e o que eles podem fazer por ela.

Não são somente livros — há post de blog, tese de doutorado e até áudio de palestra. Os temas abordados também são algo desencontrados: vão de programação até design, passando por teoria dos jogos e por mortos na época da peste bubônica. Na soma de tudo, espero oferecer um cardápio rico para quem quer conhecer o jornalismo de dados mais a fundo e ir além do tecnicismo.

A Fundamental Way Newspaper Sites Need to Change

Trata-se de um post de blog publicado ainda em 2006 por um jornalista que trabalhava no “Washington Post”. Adrian Holovaty sustenta que os sites noticiosos precisam abandonar a “visão de mundo materiocêntrica”. Segundo Holovaty, nem tudo deve ser encapsulado em uma matéria. Muitas vezes é interessante estruturar as informações de modo que o leitor possa usá-las de acordo com suas próprias curiosidades e necessidades. Esse jornalista, aliás, foi quem criou a linguagem de programação Django. Meio não-ortodoxo ele, né?

  • Spoiler: abaixo o jornalismo-textão

The Functional Art

Alberto Cairo é meu herói jornalístico pessoal. Comecei a me interessar por jornalismo de dados graças a um curso on-line ministrado por ele, em 2013. Foi nesse mesmo curso, organizado pelo Knight Center for Journalism in the Americas, que tive contato com “The Functional Art”. O autor explica porque narrativas visuais — sejam elas guiadas por dados ou não — podem ajudar na compreensão de assuntos complexos. Também destaca como jornalistas podem usar esse potencial de modo mais eficiente.

  • Spoiler: jornalismo visual não serve para deixar a página bonita, serve para passar uma mensagem

The Truthful Art

É a sequência do livro anterior. Em “The Truthful Art”, Alberto Cairo se dedica exclusivamente aos dados, deixando de lado alguns dos infográficos mais narrativos que aparecem em “The Functional Art”. O destaque é uma explicação muito detalhada de como números solitários podem nos enganar. Cairo insiste, didático como poucos, que, antes de acreditar numa média qualquer, é preciso dar uma olhada nos dados como um todo — de preferência, visualmente. É o que ele chama de “exploratory data analyzis”.

  • Spoiler: antes de publicar qualquer coisa, peça os dados brutos e brinque com eles

The Forgotten History of Data Journalism

Esse texto não é de ler, é de ouvir. Scott Klein, editor do ProPublica, ministrou uma palestra em 2015 na qual expõe alguns exemplos muito antigos de materiais que, se formos generosos, podem ser consideradas produtos feitos a partir do jornalismo de dados. Segundo ele, um dos exemplos mais antigos são igrejas que publicavam folhetos dominicais listando quantos fiéis haviam sido mortos pela peste na semana anterior.

  • Spoiler: jornalismo de dados não foi inventado pelo Nate Silver

Precision Journalism

Na década de 70, existia jornalismo de dados? Sim. Já em 1967, o patrono do ofício — Philip Meyer, hoje professor emérito da Universidade da Carolina do Norte — estava aplicando questionários e usando técnicas das ciências sociais mais duras para reportar sobre conflitos raciais em Detroit, nos Estados Unidos. Em um livro publicado sete anos depois, Meyer defende a aproximação do método jornalístico e de métodos quantitativos das ciências sociais. Assim, a imprensa seria capaz de reportar sobre temas complexas com mais rigor e com menos anedotas.

  • Spoiler: existe um professor maluco nos EUA que acha que teoria dos jogos e jornalismo têm tudo a ver

Entrevistando Planilhas

Marcelo Träsel é um pesquisador brasileiro que foi referência fundamental no meu TCC. Em sua tese de doutorado, ele conversa com os repórteres que fazem jornalismo de dados no país e descobre quais são as referências culturais comuns desse grupo. Entre as características que diferenciam os “loucos das planilhas” dos demais jornalistas está o apreço pela colaboração profissional, consequência de uma aproximação com valores da cultura hacker — software livre, dados abertos, Creative Commons e tudo o mais.

  • Spoiler: se você for pedir ajuda para aqueles caras estranhos da Redação que fazem piadas sobre recursividade e têm papos esquisitos no elevador, provavelmente eles vão ser muito solícitos

Manual do Jornalismo de Dados

Um manual que apresenta diversos conceitos do jornalismo guiado por dados, da história até a prática, passando por exemplos positivos e depoimentos de repórteres que ajudaram a cavar essa trincheira. Não entra em nada muito a fundo, mas é uma introdução ampla e útil.

  • Spoiler: fazer jornalismo de dados é mais parecido com jornalismo tradicional do que você pensa

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Quer saber mais sobre Jornalismo de Dados? Faça a mentoria com Rodrigo Menegat. Ele é especialista em coleta, limpeza, análise e visualização de dados, além de programação aplicada ao jornalismo.

Ricardo Ballarine
Ricardo é entusiasta de um jornalismo inovador e que explora todas as possibilidades narrativas. Dedicou parte da carreira a treinar e capacitar jornalistas. Paulista de origem, hoje vive em Belo Horizonte (MG). Não só tem fé no jornalismo como acredita que ainda há um caminho imenso a ser explorado. Fale com ele no [email protected]