Mentoria Brio: para Letícia Duarte, o jornalismo deve estar sempre a serviço da sociedade

Letícia Duarte venceu o Prêmio Esso em três ocasiões: pelas reportagens “Lições da Turma 11F” e “O Filho da Rua” e pela série “Adolescência Prostituída”. Repórter da Zero Hora durante 13 anos, a jornalista faz parte da Mentoria do BRIO.

Morando em Berkeley, na Califórnia, nos Estados Unidos, ela se prepara para cursar um mestrado. Letícia foi contemplada com uma bolsa do programa Jornalista de Visão, do Instituto Ling.

Confira a entrevista que fizemos com a repórter, que também recebeu o título de Amiga da Criança pela Andi e fez parte, entre 2016 e 2017, da diretoria da Abraji.

Por que você escolheu o jornalismo?

Escolhi o jornalismo porque queria mudar o mundo. Claro que já entendi que não vai ser bem assim, mas continuo acreditando que cada reportagem pode mudar pelo menos o mundo de alguém. Acredito no papel social do jornalismo, nesse poder de revelar verdades inconvenientes, denunciar injustiças, questionar o que está posto. Não por acaso minhas principais reportagens estão no campo social. A realidade me dói, e escrever sobre ela é a minha maneira de lutar contra a banalização da injustiça social. Gosto especialmente das grande reportagens, que vão além do factual em busca de mais profundidade, produzindo informação capaz de ajudar a sociedade a refletir sobre si mesma.

O que você mais ama no jornalismo?

Uma das coisas que mais me fascinam como jornalista é a oportunidade de aprender todos os dias, enxergando a realidade sob múltiplos ângulos. De poder estar um dia em um palácio, e no outro em uma favela. Raras profissões permitem esse olhar tão diverso. É um privilégio que habilita o jornalista a ser um tradutor de mundos, transitando entre diferentes realidades para criar pontes entre elas. Fazer uma boa tradução da realidade é um dos maiores desafios do jornalismo, e também uma das missões mais estimulantes da nossa profissão.

Que conselho daria para alguém que está começando na profissão?

Muita gente diz que jornalismo é contar histórias, mas na minha opinião essa é uma verdade parcial. Mais do que contar histórias, precisamos escolher que histórias iremos contar. Aconselharia a cada jovem jornalista a refletir sobre isso para poder guiar sua carreira. Jornalismo é uma profissão muito exigente, e não é todo mundo que aguenta o tirão. Só os jornalistas mais apaixonados e obstinados é que vão persistir nesse processo de seleção natural, e para isso é preciso encontrar a própria paixão como jornalista. Aquele motivo íntimo que vai justificar você trabalhar muitas horas, geralmente ganhando menos do que se esperaria, para produzir algo que possa fazer a diferença. Não só para a sociedade, mas para a sua própria vida.

E para quem já é experiente?

Cuidado pra não achar que sabe tudo. A arrogância é um perigo para o jornalismo, e anda de mãos dadas com a preguiça, a zona de conforto. Se determinada realidade não te desafia mais, talvez seja o momento de procurar novos ares.

E quais as dicas para jornalistas mulheres? Você enfrentou mais dificuldades no jornalismo por ser mulher?

Lembro que uma vez, nos primeiros anos de carreira, um editor me tirou de uma pauta por ser mulher. Era uma matéria sobre moradores de rua, que incluía passar uma noite na rua. E ele disse: “tu é mulher, não dá, vai ser perigoso”. Fiquei indignada, mas na época não consegui reverter a decisão. Anos depois, minha resposta indiretamente veio com outro trabalho.

Letícia Duarte escreveu a reportagem "O Filho da Rua"
Foto: Jefferson Botega

Passei três anos acompanhando a trajetória de um menino de rua em Porto Alegre, percorrendo esquinas e pontos de crack, para produzir a reportagem Filho da Rua, que depois ganharia os principais prêmios de jornalismo do país, incluindo o Esso nacional de Reportagem e o Vladimir Herzog de Direitos Humanos. Então acredito que o trabalho sempre fala mais alto. Não é por acaso que temos grandes repórteres mulheres cobrindo guerras e conflitos. Embora tenhamos avanços, precisamos manter um diálogo aberto sobre as questões de gênero, porque a desigualdade é histórica e cultural.

Para você, o/a jornalista dos novos tempos precisa “aprender a tirar proveito da tecnologia sem se deixar deslumbrar por ela: o bom jornalismo ainda precisa ser feito com alma, obstinação e disposição para gastar sola de sapato”. Você poderia falar mais sobre isso?

O avanço tecnológico vem facilitando muito a vida do jornalista, graças a Deus! Hoje em dia é muito mais fácil acessar qualquer informação sem sair da redação. Mas é importante lembrar que a tecnologia nunca vai substituir o trabalho do repórter. Vejo muito jornalista iniciante já acomodado, fazendo entrevistas por mensagens de texto, sem sequer pegar o telefone para ouvir a fonte. O cúmulo foi uma vez em que vi uma jovem repórter que publicou uma entrevista com o próprio pai pelo WhatsApp. Acho perigoso nos acomodarmos com esses caminhos fáceis e preguiçosos. O jornalismo requer disposição para ir atrás do que ainda não está no Google. É preciso manter o olhar aguçado para observar e interpretar os fatos e os discursos, e não apenas reproduzi-los com ctrl+C e ctrl+V.

Conte um pouco sobre o seu mestrado. Como foi o processo para conseguir a bolsa e o que você está estudando?

Ganhei uma bolsa do programa Jornalista de Visão, do Instituto Ling, para fazer mestrado nos Estados Unidos. O processo da bolsa é concorrido, eram mais de 60 jornalistas de todo o país disputando uma das sete bolsas, em várias etapas de seleção. Estou atualmente morando em Berkeley, na Califórnia. Já fui aprovada por duas das três universidades para as quais apliquei, e em breve devo receber a última resposta. Mas estou inclinada a optar pelo mestrado em novas mídias e jornalismo investigativo, da Universidade de Berkeley. Estou super animada. Depois de 16 anos trabalhando em redação de jornal, sinto que é um bom momento para me reinventar como jornalista e aprender novas linguagens. O mestrado em Jornalismo de Berkeley é considerado um dos melhores dos Estados Unidos e tem duração de dois anos.

Como surgiu a ideia de fazer a reportagem “Refugiados: Uma história”? Quais eram seus medos? E suas expectativas? Como você se preparou?

O jornal Zero Hora decidiu me enviar para cobrir a crise dos refugiados na Europa em setembro de 2015, logo depois do caso do menino Aylan, que na época se tornou o símbolo do drama humanitário, ao morrer em um naufrágio no mar Mediterrâneo, na rota de fuga da guerra na Síria. Em uma conversa com editores, decidimos reconstituir a jornada que a família de Aylan não havia conseguido completar, tentando contar a história de famílias que estivessem no mesmo caminho, rumo à Alemanha. Não tive muito tempo de preparação, foram dois dias e meio entre a decisão de ir e o embarque.

Viajei sozinha, com uma mochila nas costas, tendo como ponto de partida a praia de Bodrum, na Turquia, onde o corpo do menino foi encontrado. Do outro lado, na ilha de Kos, na Grécia, encontrei uma família que se dispôs a ser acompanhada, e segui com ela até a Alemanha, percorrendo campos de refugiados, caminhando várias horas por dia e dormindo ao relento pelas fronteiras. Foram 2.590 quilômetros e sete países percorridos, em oito dias.

Meu maior medo era que algo no meio do caminho me impedisse de seguir acompahando a família. E a ameça se concretizou: na Croácia, a polícia me expulsou do campo de refugiados por ser jornalista. Era a primeira vez que me pediam documentos. Foi um momento de bastante tensão, porque haviam vários destinos possíveis, e as autoridades não informavam para onde a família seria levada. Senti que poderia perder a história. Mas depois de muitas peripécias felizmente consegui reencontrá-los em um campo de refugiados na Áustria, no dia seguinte, e acompanhar a jornada deles até a Alemanha.

Foi uma das reportagens mais difíceis da minha vida porque, além do cansaço físico, havia a preocupação técnica: como manter as baterias para fazer fotos e vídeos, por exemplo, já que estava viajando sozinha, sem fotógrafo, nem tradutor. Mas deu tudo certo, e a reportagem multimídia foi publicada em um especial de 16 páginas na ZH e na web.

Você acha que a mentoria é importante para profissionais do jornalismo? Se sim, por quê?

A mentoria é um grande projeto. O jornalismo não vem com manual, e todos os dias somos confrontados com questões éticas, técnicas, estéticas. Ter um espaço para discutir o jornalismo e suas inerentes questões é uma ótima oportunidade para aprendizado coletivo. No meio da correria jornalística, parar para pensar é uma necessidade.

Qual é a sua expectativa com a mentoria do BRIO?

Estou super empolgada com o projeto. Já admirava o Brio de longe, é é muito bacana agora poder contribuir, junto com um time incrível de colegas, com esta iniciativa.

Como você pretende ajudar os/as jornalistas?

Quero dividir parte do que aprendi – e continuo aprendendo – nessa jornada como jornalista, especialmente na produção de reportagens de fôlego. Quero ser parceira para estimular a desenvolver ao máximo os talentos de cada profissional, em busca de um jornalismo de excelência. Acredito que não há fórmulas, mas um trabalho artesanal de trocas e aprendizado mútuo. Lembrando sempre que o jornalismo deve estar a serviço da sociedade.

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Entre as especialidades de Letícia Duarte, estão as reportagens especiais, a investigação de temas sociais, o jornalismo literário e o etnográfico. Quer fazer a Mentoria com ela? Clique aqui.

 

Lara Mizoguchi
Ama conhecer novas histórias e poder contá-las. É gaúcha e morou cinco anos no Rio de Janeiro, onde trabalhou no jornal Extra e com marketing digital. Atualmente, cursa um mestrado em Estudos Culturais, em Bordeaux, na França. Sua utopia é que o jornalismo seja capaz de transformar – para o bem – o mundo. Fale com ela no [email protected]