Gay Talese: um guia para ler o jornalista

Todo jornalista, em algum momento da carreira, já ouviu este apelo: você precisa ler Gay Talese. Seja na faculdade, no início de carreira ou até depois de alguma experiência, essa ordem disfarçada de sugestão faz parte da formação de todo repórter.

Ela não vem sozinha. Seu complemento detalha qual caminho a seguir: leia o perfil que ele escreveu sobre o Frank Sinatra sem entrevistá-lo. Normalmente, seguido por algumas exclamações, no texto ou na entonação, a ênfase é clara: você não pode seguir sua vida profissional sem ler esse texto.

A referência é a “Frank Sinatra Está Resfriado”, publicado em 1966 na revista Esquire e depois reproduzido no seu livro mais famoso, “Fama e Anonimato“.

Talese, incumbido de entrevistar o cantor, não conseguiu uma palavra de Sinatra, sempre cercado de capangas da máfia ou com má vontade de conversar com ele. Então, o jornalista optou por contar a história sem ouvir o personagem principal.

Tornou-se um marco do novo jornalismo e referência para todo mundo que se aventurou pela profissão desde então.

O barulho faz sentido. Afinal, que chefe de reportagem ou editor pensa em pautar um repórter para produzir um perfil sem colocar o objeto de estudo no texto entre aspas? Talese mudou a ordem, mas o fato é que poucos conseguiram chegar ao nível de perfeição alcançado nesse texto.

Ler esse perfil deveria ser disciplina obrigatória em qualquer faculdade. Mas Talese tem muito mais a entregar para um jornalista.

Apesar de seus mais de 60 anos de carreira, Talese tem poucos livros lançados — são seis no total, que se somam a inúmeras compilações de seus textos produzidos para a Esquire e The New Yorker.

O BRIO coloca um pouco de ordem nessa bibliografia e mostra o que tem no Brasil e o que só está em inglês e que é essencial — alguns títulos ficam de fora por repetirem textos que estão em outros volumes mais importantes, portanto, a lista tem seis livros e duas coletâneas.

De qualquer forma, quem quiser ir além pode pesquisar nos arquivos da The New Yorker e Esquire — nem tudo está aberto, mas uma busca mais detalhada no Google pode levar ao texto. Vale também assistir às entrevistas que estão disponíveis no YouTube, em que ele conversa sobre seus métodos, os obstáculos de fazer uma reportagem e outros temas ligados ao jornalismo.

Como última dica antes de mergulhar nos livros, este minidocumentário perfila a agenda de Gay Talese.

Fama e Anonimato

Bom, para começar, o clássico de Talese. Você já deve ter lido o perfil de Sinatra, então invista em outras pérolas do repertório do jornalista. “Nova York: A Jornada de um Serendipitoso” tem uma das aberturas mais famosas do texto jornalístico, com o retrato que ele faz da cidade e seu morador por meio de números.

Mais. Há “A Ponte”, uma investigação sobre a construção da obra de arte Verrazano-Narrows, que liga Staten Island ao Brooklyn. Tem perfis de Joe Louis, Peter O’Toole, Frank Costello e Joe DiMaggio. O último texto é um dos meus favoritos, “Sr. Má Notícia”, perfil de um obituarista do New York Times.

O Reino e o Poder

Biografia clássica do The New York Times, que se abriu para que Gay Talese detalhasse como o jornal não só se consolidou como o principal dos Estados Unidos, mas também as entranhas das disputas pela cadeira de publisher.

Talese é minucioso. Expõe contradições e reconta como grandes reportagens foram produzidas. Em algumas passagens, é perceptível a decepção com os rumos tomados pelo jornal, e o autor tenta se manter distante para não comprometer sua narrativa.

A Mulher do Próximo

O jornalista queria entender a revolução sexual que acontecia na América profunda nos anos pré-Aids, que começam nos 1960 e alcançam a década seguinte.

Ele faz uma reportagem que se aproxima do gonzo, ao se inserir como personagem. Seus relatos de orgias em encontros de swingers são próprios de quem estava participando — e isso chegou a balançar seu casamento, como Gay Talese admitiu nas entrevistas de lançamento do livro.

Talese esmiuça o comportamento de quem levava uma vida de liberdade sexual e sem parceiro fixo, mesmo casado, e isso chocou os Estados Unidos puritanos. Um clássico para ser lido e relido.

O Voyeur

Para manter a pegada sexual, este é o resultado de um trabalho de mais de 30 anos. Talese começou a se corresponder com Gerald Foos, um dono de motel que relatava em cartas as observações que fazia dos quartos que alugava, ainda na década de 80 e só publicou o livro em 2016.

Do teto, Foos assistia às pessoas fazerem sexo e, de alguma forma, ele tentou transformar a atividade voyeurística em um estudo na linha do Relatório Kinsey. Talese se interessou pela história e publicou uma reportagem na The New Yorker, transformada neste livro, depois de anos de acompanhamento.

Foos negou muita coisa depois da publicação, e isso gerou um problema para o jornalista, que chegou a rejeitar o livro — logo depois, voltou atrás.

Então, resta ao leitor uma obra que se pretende não ficção, mas que emerge como a melhor ficção já escrita por Gay Talese.

Honra Teu Pai

“Os porteiros de Nova York sabem que uma pessoa pode ver demais e por isso a maioria deles adquiriu uma extraordinária capacidade de visão seletiva: sabem o que devem ver e o que ignorar.”

A abertura é uma pequena maravilha que descreve o funcionamento da máfia nova-iorquina e como ela influenciava o comportamento de pessoas comuns. Com acesso livre aos intestinos da família Bonanno, Talese entrega o livro definitivo sobre a máfia.

Só que ele não fica no jogo de chefões e assassinatos. Para Gay Talese, o clã era uma família como outra qualquer, que saiu da Sicília para buscar o sonho americano. Ao equilibrar essas duas visões, o jornalista produz uma obra-prima.

The Silent Season of a Hero

Este livro mostra a faceta que Talese cultivou nas histórias publicadas em revistas: seus textos sobre esporte. A reportagem que dá título ao livro está incluída na coletânea “Fama e Anonimato”, traduzida como “O Outono de um Herói” — o perfil da Joe DiMaggio é considerado um dos melhores textos já escritos sobre o gênero.

A coleção reúne material de 1948 a 2006. Estão lá Muhammad Ali, Floyd Perterson e gente que fica na periferia das estrelas.

São textos, em sua maioria, mais curtos, mostram a capacidade de encontrar personagens e histórias onde ninguém mais consegue enxergar além do óbvio.

Unto the Sons

Para retratar a imigração italiana para os Estados Unidos no início do século 20, Gay Talese investiga as origens da própria família. Ele começa pelo seu bisavô, que vivia em Maida (região da Calábria), e passa pelo seu avô, que aportou na Pensilvânia.

Seu pai, Joseph, que chegou à América na época da 1ª Guerra Mundial, é o personagem principal e o que conduz o trabalho de Talese.

Por meio de memórias e pesquisa, o jornalista reconstrói não só sua origem, mas espelha a de vários imigrantes que se aventuraram por um novo mundo. O leitor termina por encontrar uma crônica da América escrita por um dos seus melhores observadores.

Vida de Escritor

Este é um livro que difere da bibliografia do autor. O leitor não tem à sua frente histórias e perfis completos nem reportagens profundas e bem estruturadas.

Aqui, estamos diante do fracasso e do modo de produção de um jornalista. Não à toa, ele começa com a descrição de um esporte que ele não gosta e tampouco conhece (futebol) e de um pênalti perdido.

Ao longo do livro, Gay Talese vai expondo seus próprios erros. As histórias que ele apresenta são incompletas ou acabam quando o fato se esgota. É o escritor explorando seus limites e como eles afetam seu trabalho de jornalista.

Ricardo Ballarine
Ricardo é entusiasta de um jornalismo inovador e que explora todas as possibilidades narrativas. Dedicou parte da carreira a treinar e capacitar jornalistas. Paulista de origem, hoje vive em Belo Horizonte (MG). Não só tem fé no jornalismo como acredita que ainda há um caminho imenso a ser explorado. Fale com ele no [email protected]