Entrevista: saiba como dominar a arte de uma boa conversa

Entrevista é o elemento essencial do jornalismo. A reportagem depende de investigações, observação, números e capacidade de escrever de forma clara, mas a entrevista, as declarações que fontes e personagens dão ao repórter, é que vão dar vida ao texto.

O jornalista depende desse elemento, até mesmo para conseguir informações em off — mesmo que não seja o ideal, esse é um recurso válido e que depende de uma boa entrevista e da capacidade do repórter de conduzir uma conversa com a fonte.

“Levar as pessoas a falar. Aprender a fazer perguntas que provoquem respostas sobre o que há de mais interessante e intenso em sua vida”, diz William Zinsser em “Como Escrever Bem” (Três Estrelas), “nada estimula tanto a escrever como alguém falando sobre o que pensa ou faz — com as suas próprias palavras”.

Pois é essa arte, que necessita de um tanto de técnica, que transforma histórias em textos cativantes. Conseguir as aspas ideais, aquelas frases que causarão impacto no leitor, faz parte da tarefa do jornalista que vai a campo.

Entrevistar é uma técnica em que você tende a melhorar com o tempo e a prática. A próxima entrevista será melhor do que a anterior, em todos os sentidos: condução, preparação, questionamentos.

A prática é necessária pois é preciso reconhecer que não é uma tarefa fácil arrancar de alguém uma declaração sobre algo embaraçoso ou delicado, que envolve questões pessoais ou denúncias. A experiência é um elemento essencial para que você se torne um entrevistador melhor.

Ramona Koval, jornalista australiana, assim define seu papel como entrevistadora: “A minha tarefa consiste, em parte, em desfazer na primeira pergunta todas as experiências que o autor já teve (…) Da minha parte, não quero lutar nem fazer amor com meus entrevistados. O que quero é mostrar, por meio de uma conversa inteligente, sensível e esquadrinhadora, quem é a pessoa diante de mim, o que ela pensa, que sabedoria pode compartilhar.”

Ela conduziu dezenas de entrevistas com escritores para seu programa de rádio, reproduzidas no livro “Conversas com Escritores” (Biblioteca Azul), uma ótima leitura para o jornalista entender como conduzir uma entrevista.

Para Ramona Koval, a entrevista precisa de uma boa preparação
A jornalista australiana Ramona Koval | Foto: Simon Schulter

Como técnica, é possível listar alguns passos que podem orientar o jornalista e levá-lo a dominar a arte da entrevista. Relacionei 17 delas, que funcionam bem para quem precisa aprimorar seu trabalho. São dirigidas para entrevistas pessoais e individuais — para coletivas e paradinhas, aquelas aglomerações de repórteres em torno de um personagem, a história é um pouco diferente.

Algumas dicas antes de chegar à lista

Antes de chegar até a lista, é importante ressaltar algumas coisas. Primeiro, nunca esqueça que o jornalista não é o centro das atenções. Muito repórter se sente estrela e acha que deve aparecer mais do que o entrevistado. Você está lá como um intermediador, uma espécie de facilitador entre o leitor e o fato. Ao incorporar essa persona, você vai conduzir a conversa de forma mais leve, distante, e o resultado será melhor.

Outra coisa fundamental que precisa estar incorporada ao trabalho do jornalista: a pré-entrevista. São passos simples, mas, acreditem, muita gente acaba esquecendo de ações básicas. Portanto, observe horário e o local, calcule o tempo necessário para chegar até lá com minutos de folga. Nunca deixe o entrevistado esperando.

Faça aquele check-list básico: bloco, canetas, gravador digital e celular carregado. Teste os equipamentos antes, veja se está tudo funcionando. Afinal, nem todo mundo é Truman Capote, que dizia ser capaz de lembrar com precisão de 96% do que seus entrevistados diziam.

Feito isso, é hora de mergulhar nestas 17 dicas. Vamos lá?

17 dicas para fazer uma boa entrevista

1 – Tenha um foco e defina seus objetivos. Importante para que você saiba como conduzir a conversa

2 – Pesquise o tema da conversa antes. Ter segurança dos fatos é importante para não abrir brechas e questionamentos. Para Ramona Koval, a preparação é essencial para o jornalista

3 – Pesquise também o entrevistado. Ter dados sobre seu interlocutor é obrigação

4 – Defina os termos da entrevista antes. Com essa medida, você evita o off. Mas não antecipe as perguntas, apenas os assuntos que pretende tratar. E avise o entrevistado se for gravar a conversa. Tenha em mente que uma entrevista não pode se transformar em uma emboscada, como disse Pedro Doria ao BRIO

5 – Prepare algumas perguntas. Dessa forma, você evita silêncios e fica com um roteiro inicial. Mas lembre-se: não será necessário fazer todas as perguntas preparadas

6 – Seja egoísta. Faça as perguntas que gostaria de fazer

7 – Saiba perguntar. Dicas: evite perguntas que possam gerar respostas monossilábicas; formule perguntas curtas; faça uma pergunta por vez; não coloque opinião ou juízo de valor; seja claro no enunciado; não argumente para convencer o entrevistado de algo contrário (use fatos e peça para comentar)

8 – Faça a pergunta mais difícil primeiro. O entrevistado está menos tenso, tem mais tempo para responder e desenvolver o assunto. Políticos e empresários estão acostumados com um approach mais avançado

9 – Conduza a conversa. O entrevistado é seu foco, por isso, mesmo que você esteja gravando e queira anotar, escreva sem tirar os olhos do seu interlocutor. Mantenha uma relação amigável e deixe o entrevistado à vontade

10 – Saiba escutar. Tão importante quanto perguntar é saber escutar. As respostas podem mudar o rumo da conversa, apresentar dados novos que precisam de questionamentos e revelar fatos

11 – Fuja do roteiro. Importante é estar atento para aproveitar as respostas e rebatê-las; além disso, novos temas podem surgir. O roteiro serve como guia, nunca pode ser uma amarra

12 – Não tenha medo de interromper. Muitos entrevistados têm como qualidade a arte de divagar. Seja para fugir do assunto ou para confundir o entrevistador, o fato é que você precisa intervir e puxar a rédea. Traga a fonte de volta ao assunto

13 – Peça para o entrevistado esclarecer suas dúvidas. Saiba ser ignorante, não tenha receio de pedir para ele explicar melhor, de forma mais didática

14 – Repita a pergunta. Não hesite em questionar pela segunda vez caso ele não responda

15 – Anote o essencial. Você precisa escrever rápido e sem olhar para o bloco. Portanto, suas anotações serão telegráficas. Com o tempo, você vai criando códigos e omitindo conexões sintáticas, para deixar apenas o essencial

16 – Não esqueça da pós-entrevista. Anote local, horário e descrição do entrevistado. Peça contatos para que você possa pedir esclarecimentos sobre alguma informação

17 – Transcreva a entrevista logo ao final. Suas anotações precisam ser completadas o mais rápido possível, pois a conversa ainda está fresca na memória. Preencha os vazios das anotações

Dois livros para se aprofundar no tema

Para fechar, nada melhor do que duas indicações de livros que aprofundam a arte da entrevista. Um deles é “Por Trás Da Entrevista” (Record), de Carla Mühlhaus. Ela conversou com jornalistas e bons entrevistadores com o objetivo de decifrar seus métodos.

Outra sugestão é “The Art of Interview” (Three Rivers Press), de Lawrence Grobel, jornalista que entrevistou gente como Marlon Brando, um personagem tradicionalmente arredio a conversas, Al Pacino e Mel Gibson.

No livro, Grobel relembra suas principais entrevistas e comenta as situações em que foi mais exigido como jornalista

Ricardo Ballarine
Ricardo é entusiasta de um jornalismo inovador e que explora todas as possibilidades narrativas. Dedicou parte da carreira a treinar e capacitar jornalistas. Paulista de origem, hoje vive em Belo Horizonte (MG). Não só tem fé no jornalismo como acredita que ainda há um caminho imenso a ser explorado. Fale com ele no [email protected]