Para Denis Russo Burgieman, jornalista precisa ter coragem

O que a vida quer da gente é coragem. Usando as palavras de Guimarães Rosa, o jornalista Denis Russo Burgieman acredita que essa é uma característica fundamental para quem segue nessa profissão. Já que, ele explica, o “bom jornalismo carrega uma dose de incômodo”.  Colunista do Nexo Jornal, ele foi roteirista do programa Greg News, da HBO, e autor da editoria todavia.

O mentor do BRIO também foi diretor de redação de publicações como a Superinteressante e a Vida Simples, além de ter escrito livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas inovadoras, e “Piratas no Fim do Mundo”, o diário de uma expedição à Antártida para combater baleeiros.

Em 2007, Denis foi um dos 20 jornalistas escolhidos para receber uma John S. Knight Fellowship, que lhe abriu as portas da Universidade Stanford. Ele conta um pouco do processo seletivo e otras cositas más nesta entrevista:

Por que você escolheu o jornalismo?

Por um lado, porque gostava de escrever. Pelo outro, por desejo de relevância, de ficar por perto das coisas importantes do mundo.

O que você mais ama no jornalismo?

Amo descobrir do zero um assunto novo. Amo encontrar histórias das quais nunca tinha ouvido falar. Amo a diversidade: mudar de assunto de tempos em tempos.

Que conselho daria para alguém que está começando na profissão?

Aprenda inglês e adquira o hábito de consumir os melhores produtos jornalísticos do mundo – é bom ter referência. É bom ter paixões também: temas que você segue obsessivamente.

E para quem já é experiente?

Olha, os mesmos. São úteis para qualquer um.

Você foi um dos 20 jornalistas escolhidos em 2007 para receber uma John S. Knight Fellowship para estudar na Universidade de Stanford. Você pode contar como foi o processo para a bolsa? E o que você estudou em Stanford?

O processo é minucioso, exige dedicação. Precisei escrever cartas, pedir que outros me recomendassem, traduzir muitas matérias minhas, foram vários dias inteiros de trabalho – tirei uma semana de férias para isso. Depois veio uma entrevista por telefone. Não passei no primeiro ano, no segundo passei em Stanford e no MIT e pude escolher. Estudei muitas coisas diferentes: inovação, liderança, segurança internacional, escrita criativa, jornalismo digital, não-violëncia, vôlei de praia :-)…

Como é fazer jornalismo com humor? Quais são as maiores dificuldades? E os cuidados necessários?

É bom lembrar que meu papel no Greg News era na dimensão do jornalismo – havia um time de humor que usava nosso texto jornalístico como matéria-prima. Portanto a minha rotina era a de qualquer jornalista: entrevistar muito, ler muito, estudar muito, escrever um texto longo, complexo, claro e completo. Depois a equipe de roteiristas de humor construia uma camada humorística por cima desse alicerce informativo. (Claro que de vez em quando eu tentava emplacar uma piada, mas as minhas eram as piores.) Como era um time mixto fazendo um texto híbrido (jornalismo + humor), as responsabilidades eram compartilhadas. Meu trabalho, assim como o de alguns craques do jornalismo que trabalhavam comigo (Bruno Torturra, Carol Pires) era zelar para que a informação estivesse correta e clara, para que o humor não atrapalhasse a compreensão dos fatos etc. Já os humoristas zelavam para que tivesse graça. Gosto de trabalhar em equipe com gente de culturas profissionais diferentes. Na Super acostumei-me a um time híbrido de jornalistas + designers fazendo infográficos e coisas do gênero. O Greg News tinha coisas em comum. Gostei demais de conviver com artistas/performers, que têm uma sensibilidade imensa para timing e outros detalhes.

Para você, o/a jornalista dos novos tempos precisa de “coragem, para trilhar caminhos novos, e curiosidade genuína sobre o mundo, que é um traço fundamental para qualquer bom jornalista, em qualquer época”. Você poderia falar mais sobre isso?

Coragem é o que a vida quer de nós, como bem escreveu Guimarães Rosa. É ítem básico na caixa de ferramentas de qualquer profissional que queira fazer um impacto. Não dá para fazer bom jornalismo sem, porque inevitavelmente bom jornalismo carrega uma dose de incômodo. Jornalismo só para agradar é covarde e não gera muito impacto. Nos tempos de hoje, de crise da indústria, essa característica fica mais importante ainda, porque o arroz-feijão não vai nos salvar. Precisamos de desbravadores – e desbravar exige coragem. Já curiosidade é a característica fundamental da profissão. Bons jornalistas precisam se interessar pelos outros – eles precisam curtir ficar em silêncio por horas, ouvindo alguém, entrando em seu ponto de vista, procurando enxergar o mundo com seus olhos. A maioria das pessoas têm dificuldade de se colocar nesse lugar.

Você acha que a mentoria é importante para profissionais do jornalismo? Se sim, por quê?

Acho sim, em especial nestes dias disruptivos de hoje, em que raros jovens jornalistas têm a oportunidade de conviver intensamente na redação com gente experiente. Claro que a próxima geração de jornalistas trabalhará num mercado bem diferente da anterior, portanto há limite no valor dos nossos conselhos: eles terão que necessariamente fazer diferente de nós. Mas não custa nada aprender uns atalhos. Sinto também, que há um caráter motivacional: a situação do mercado está muito difícil, as redes sociais são um ralo por onde o tempo escoa. É importante ter alguém instigando, propondo, incentivando, para que os jovens jornalistas não se deixem levar pela inércia, pelo desânimo e pela insegurança.

Qual é a sua expectativa com a mentoria do BRIO?

Ajudar, como for possível.

Como você pretende ajudar os/as jornalistas?

Vai depender da necessidade de cada um. Pode ser com referências, dicas de leituras, leituras compartilhadas, crítica ao trabalho, ajuda para construir pautas, para editar texto, conversas sobre caminhos profissionais. Possivelmente com um pouquinho de cada uma dessas coisas. Quero estar disponível para o que for preciso.

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Para quem deseja fazer a mentoria com o Denis Russo Burgieman, é só clicar aqui. As especialidades dele são complexidade, ciência, escrita criativa de não-ficção, inovação, jornalismo de ideias, jornalismo literário, livro jornalística, edição de revistas, jornalismo digital, publishing.

Lara Mizoguchi
Ama conhecer novas histórias e poder contá-las. É gaúcha e morou cinco anos no Rio de Janeiro, onde trabalhou no jornal Extra e com marketing digital. Atualmente, cursa um mestrado em Estudos Culturais, em Bordeaux, na França. Sua utopia é que o jornalismo seja capaz de transformar – para o bem – o mundo. Fale com ela no [email protected]