Conheça 8 áreas em que um jornalista pode atuar

Até o início do século 21, jornalista era um bicho segmentado. E o que isso quer dizer? Ninguém invadia a área em que ele atuava, cada um ficava no seu setor — sem contar que a exigência do diploma restringia o acesso à profissão, mas essa é outra história.

Naquela época, repórter apurava e escrevia, fotógrafo fazia fotos, diagramador desenhava páginas, editor tinha que editar, assessor mandava release e marcava entrevista e pronto.

Com raríssimas exceções, um repórter saia da Redação com a incumbência de fazer fotos também. Hoje, repórter que não faz foto ou vídeo nem entra na Redação.

Mudou o mundo, mudou o jornalismo.

A profissão é uma das que mais sofreu com a revolução digital, da web 2.0 e até 3.0, para o bem e para o mal. Quantas eram as áreas que um estudante tinha pela frente quando optava por fazer a faculdade de jornalismo? Imprensa (escrita, falada e televisionada) e assessoria.

As funções eram restritas, sem muitas opções. Escrever, editar e ilustrar eram suficientes para um veículo.

A tecnologia mudou a história. O desenvolvimento tecnológico obrigou ao jornalista a incorporar habilidades como fotografar, filmar, programar, raspar planilhas, navegar em redes sociais, ler métricas, entre outras.

Se hoje o jornalista precisa saber de tudo isso um pouco, antes de se especializar em alguma dessas habilidades, é porque os tempos são outros e exigem um profissional diferente, multidisciplinar e que saiba se locomover por várias plataformas.

As empresas que pedem um jornalista para desempenhar dezenas de funções por um salário ridículo não podem ser levadas a sério, muita gente já percebeu isso. Mas o novo jornalista é diferente, sim, do que era há 10, 15, 20 anos. E isso é inegável, sem volta.

Mesmo que você não vá exercer todas as funções simultaneamente, esse conhecimento faz parte da formação e do desenvolvimento do jornalista atual. E aí não importa se você vai ser um repórter de economia, um fotojornalista, um rato de redação ou um profissional independente que trabalha com matérias investigativas.

Todas as novas aptidões vão ser cobradas, direta ou indiretamente, no seu trabalho, seja ele fixo ou temporário.

A redação é uma das áreas do jornalismo
A Redação do Washington Post retratada em “Todos os Homens do Presidente”

Se pudermos resumir essa transformação em uma palavra, ela seria AUTONOMIA. Sim, autonomia para ser independente, criar negócios locais, startups, para pensar e produzir sua pauta em uma Redação.
São tempos que exigem criatividade, espírito crítico e planejamento, não por acaso os pilares do BRIO. Juntos, levam a essa autonomia.

Este novo jornalista tem liderança, capacidade de se comunicar com clareza, didatismo, organização para cumprir prazos e orçamentos e habilidades interpessoais, para lidar com colegas, fontes, entrevistados, personagens e construir relações.

São novas eras, que exigem um jornalista diferente. Não mais aquele visto na sátira “A Primeira Página”, de Billy Wilder, nem no clássico “Todos os Homens do Presidente”.

Então, essas múltiplas funções também abriram caminho para novas posições, oportunidades de trabalho que não existiam há pouco tempo.

As clássicas permanecem firmes, com as necessárias adaptações — a inclusão de novos conhecimentos do mundo digital. Só que agora as oportunidades são mais amplas.

Veja a seguir as áreas em que jornalistas podem atuar. Selecionamos oito, sendo que algumas ainda fazem parte do portfólio básico da profissão, enquanto outras aparecem devido a estes novos tempos.

1. Repórter

Aqui está a essência do jornalismo. Contar histórias, do buraco de rua à investigação de falcatruas de Brasília. Na resiliente mídia impressa, jornal ou revista, em sites ligados à grande imprensa ou a iniciativas independentes, TV ou rádio, o repórter é o elemento essencial.

O perfil continua igual: aqui, precisa daquela dose de curiosidade, vontade de descobrir histórias. Vontade de colocar o pé na lama, como diria Gay Talese.

E se antes era possível ter o repórter de texto e o fotojornalista, hoje, essas fronteiras já se misturam um pouco. Claro que o nível de habilidades ainda são diferentes, mas ambos coexistem e se transformam, não raro, em um único profissional.

Eventualmente, há um caminho para seguir dentro de uma redação, como passar a ser repórter especial ou entrar naquela área denominada de cargos de confiança: editores e redatores. Mas não há jornalismo sem essa função nobre.

2. Freelancer

Uma variação do repórter, o chamado frila desempenha mais funções do que aquele profissional ligado a uma empresa. Como autônomo, ele tem que gerir a produção da matéria, marcar entrevistas, preocupar-se com deslocamento e administrar o orçamento.

Freelancer também é fotojornalista, com conhecimentos de filmagem — não só de captação, mas de edição também.

Ele existia antes? Claro, mas agora, com a tecnologia, a função se proliferou. Contatos são mais fáceis, assim como a produção de reportagens.

Muita gente aposta na vida autônoma para o jornalismo, inclusive o BRIO 🙂

3. Produtor

Quem pensou que poderia ser dono de um canal próprio, um espaço em que o jornalista poderia escrever o que quisesse, sem intervenções do editor ou ordens da chefia? A web 2.0 quebrou essas barreiras.

Seja em blogs, seja em um canal no YouTube, o jornalista pode optar por transformar essas plataformas em seu veículo pessoal. Além disso, há as páginas de redes sociais, que ajudam na composição da sua audiência.

Se monetizar ainda é um desafio, o fato é que o jornalista pode produzir conteúdo de forma independente. E há, sim, meios de ganhar dinheiro, sem necessidade de fazer jabá.

Quer mais? A facilidade de criar sites favorece o fortalecimento do jornalismo local. Com um domínio (baixo custo anual), é possível montar uma página para cobrir os fatos de uma cidade pequena, que não é atendida pela imprensa tradicional.

Muita gente aposta no jornalismo local, inclusive o Facebook. O jornalista tem mais essa porta aberta.

4. Redator de marketing de conteúdo

O marketing vem se aproveitando muito da formação e das técnicas do jornalista. Escrever textos por encomenda, normalmente para blogs corporativos, já é uma atividade consolidada no Brasil.

Há também espaço para a produção de material pago, os chamados informes publicitários, que ganharam importância por conta da capacidade de gerar renda para o veículo. Em agências implantadas dentro das empresas jornalísticas — New York Times e Folha têm as suas —, os jornalistas produzem material informativo e pago.

É jornalismo, mas não é. E vem ganhando espaço.

5. Social media

Esta é uma função que surgiu na última década, com a massacrante presença das redes sociais na vida das pessoas. Como para muitos Facebook é sinal de informação e funciona como seu jornal favorito, medir os dados se torna uma tarefa primordial.

Já tem jornalista que passa o dia observando o Google Analytics, analisando de onde vem a audiência, quais as matérias mais lidas, a taxa de rejeição, o engajamento.

Precisa entender de tecnologia e dos recursos oferecidos pelos players. Por exemplo, para que um link abra rapidamente, vale a pena usar o Instant Articles, do Facebook, ou o AMP, do Google? Essas estratégias passam pelo social media.

Esses profissionais também planejam campanhas e definem o que vai para cada rede social. E isso exige um conhecimento profundo da empresa em que trabalha — linha editorial, público-alvo, metas, ou seja, precisa conhecer o negócio de ponta a ponta.

É um espaço que jornalistas também vão desbravando, ainda que não faça parte do seu escopo.

6. Jornalista de dados

Há algum tempo, existia somente a RAC (Reportagem com Auxílio de Computador). Pouco se falava de jornalismo de dados, que cresceu e ganhou pernas próprias graças ao avanço da tecnologia.

Envolve não só conhecimento profundo de Excel, mas também de programação, para extrair e interpretar dados de planilhas que em muitos casos são gigantescas, comparar informações de fontes diferentes e fazer buscas detalhadas e avançadas em motores como Google.

Cursos estão surgindo em várias instituições para ensinar essa modalidade, e isso é um indicativo de que há espaço para crescer. Para muitos, esse é o futuro do jornalismo — Tim Berners-Lee, criador da web, disse isso em 2010.

7. Checador

Essa é a nova febre do jornalismo em todo o mundo, motivada principalmente pelo fenômeno das fake news. Checar declarações e números, ditos muitos vezes no calor de uma entrevista ou por meio do dedo nervoso no Twitter (alô, Trump), é um novo caminho para a profissão.

As agências começam a se consolidar no Brasil, casos da Agência Lupa e Aos Fatos. Ainda tem espaço a ser explorado, principalmente em época de eleições.

8. Assessor

A velha e necessária assessoria de imprensa não só se mantém firme como também teve que se adequar aos novos tempos. Não é exatamente jornalismo, apesar de sua formação ser comum.

Hoje, o assessor não tem mais que lidar apenas com clipping e atendimento à imprensa. É preciso criar textos para o site, enviar releases por múltiplos canais, administrar redes sociais, trabalhar também um pouco como relações públicas.

Já se transformou, em muitos casos, em comunicação corporativa, tal a amplitude que esse função adquiriu.

É uma opção que favorece a criação de pequenas agências, pois hoje o trabalho dedicado ao cliente exige mais profissionais do que há uma década.

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Rodrigo Menegat, especialista em jornalismo de dados pela Universidade de Columbia, em Nova York, está com vagas abertas na Mentoria do BRIO. Quer saber mais? Clique aqui.

 

Ricardo Ballarine
Ricardo é entusiasta de um jornalismo inovador e que explora todas as possibilidades narrativas. Dedicou parte da carreira a treinar e capacitar jornalistas. Paulista de origem, hoje vive em Belo Horizonte (MG). Não só tem fé no jornalismo como acredita que ainda há um caminho imenso a ser explorado. Fale com ele no [email protected]