Como entender de programação vai melhorar a sua vida de repórter

Há mais ou menos um ano, resolvi estudar programação. Mudança significativa para um jornalista recém-formado: durante a vida escolar, sempre fui o típico cara de humanas, com asco de qualquer coisa ligada, mesmo que remotamente, à área de Ciências Exatas. Porém, influenciado pela ideia vaga de que um hipotético “repórter do futuro” teria de ser fluente em análise de dados e em “coisas da internet”, comecei a desbravar esse campo que, de início, parece assustador.

Depois desse tempo, ainda que curto demais para que eu me considere algo próximo de um programador profissional, desenvolvi algumas habilidades que me tornaram um jornalista mais eficiente. Não se trata apenas de encontrar histórias nos dados e na rede, mas também de agilizar tarefas maçantes que fazem parte de nossa rotina profissional e ampliar o leque de ferramentas que domino.

É possível fazer parte disso sem necessariamente aprender a programar, mas sim a entender computadores e programação – em suma, a lógica básica por trás do código. Porém, dá para fazer muito mais coisas legais se você realmente entrar de cabeça nas linguagens.

Vale ressalvar que a maior parte das tarefas de um jornalista pode ser muito bem-feita sem tocar em código. Sobrevivemos até hoje sem pensar muito nisso, afinal. Entretanto, um curso introdutório de programação pode melhorar seu raciocínio lógico e sua metodologia de resolução de problemas, mesmo que você não use as técnicas que vai aprender com frequência.

Vale a pena sair um pouco do canto confortável das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Se seu medo são as contas e os números, desencane! A maioria dos processos úteis para jornalistas tem mais a ver com raciocínio lógico do que com cálculo. Lá embaixo, sugiro alguns recursos, com ênfase no que é de graça ou barato, para começar a trilhar esse caminho.

HÁ HISTÓRIA NOS DADOS

Tim Berners-Lee é um cara que realmente entende de internet. Aliás, ele é um dos principais responsáveis por popularizar o acesso à rede, já que é considerado o pai da estrutura atual da web. Em 2010, ele resolveu dar seus pitacos também sobre jornalismo – e, pessoalmente, acho que ele acertou em cheio.

“Antes, você conseguia histórias conversando com pessoas em bares, e pode ser que você vá continuar fazendo isso algumas vezes. Mas agora também vai ser sobre esmiuçar dados e se equipar com as ferramentas para analisá-los e decidir o que é interessante”, disse Lee, de acordo com o The Guardian

Talvez ele tenha exagerado. Não serão só “algumas vezes” que o repórter vai encontrar histórias gastando sapato e saliva – serão várias, talvez até a maioria. Mas que há histórias pra caramba nos tais dos dados, isso há.

Antes de tudo: o termo “dados” não significa apenas tabelas de gastos do governo e pesquisas do IBGE – embora estes sejam, sem dúvidas, uma ótima fonte de matérias. Acontece que, em um mundo digitalizado, praticamente tudo são dados, ainda que brutos: sua lista de amigos no Facebook, o conjunto de páginas da Wikipedia, as propriedades dos arquivos em seu computador… Cada um desses itens, potencialmente, guarda boas histórias. É preciso saber encontrá-las.

Falando em propriedades de arquivo, o próprio BRIO tem um exemplo de matéria investigativa que se sustenta, em grande parte, sobre essa definição mais ampla de dados. Trata-se do caso dos lobistas que escreveram emendas para o projeto da reforma trabalhista, material publicado no The Intercept Brasil. Ao prepararem o material em seus próprios computadores, esses lobistas deixaram a “impressão digital” de suas máquinas nos documentos protocolados pelo Congresso.

A partir daí, foi necessário acessar as propriedades de centenas de arquivos para rastrear quem estava por trás de cada medida. A tarefa foi realizada “no braço” por um grupo de sete jornalistas inscritos no BRIO, mas poderia ter sido automatizada e agilizada usando programação. Apenas para testar, refiz todo esse trabalho usando um código para substituir a força-bruta: precisei de vinte minutos para elaborar um programinha de 30 linhas.

Outro exemplo que não usa propriamente código, mas conhecimento sobre como os websites se estruturam, vem de uma reportagem de Raphael Hernandes, repórter da Folha de S.Paulo. Cansado de esperar por uma resposta da assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo, ele resolveu procurar as informações que queria – estatísticas sobre o tempo de fila nos postos de atendimento – nos diversos sistemas da Secretaria de Saúde.

Raphael não encontrou esses dados, mas depois de inspecionar o site e fazer pesquisas avançadas no Google, encontrou algo interessante: uma vulnerabilidade que permitia acessar o sistema interno do órgão, onde estavam disponíveis dados pessoais de centenas de milhares de pessoas. Resultado? Uma reportagem sobre falta de segurança digital na gestão Haddad.

CANIVETE SUÍÇO

Metade dos jornalistas que conheço – e me incluo nessa conta – trabalha como freelancer. Essa era de produção solitária, multimídia e muitas vezes precarizada exige que repórteres se tornem, na prática, “redações de um homem só”, capazes de entregar um produto praticamente completo. Aprender a programar é uma boa maneira de ampliar seu leque de competências, ainda mais porque são poucos os que se aventuram nessa área.

Tudo bem, você sabe escrever textos sólidos, é um fotógrafo melhor que a maioria e até consegue produzir vídeo. Mas que tal aprender a analisar aquela base de dados gigantesca que o IBGE recém liberou em busca de um ângulo que está fora do relatório oficial? Criar gráficos bonitos sem perder muito tempo em programas de edição de imagens? Monitorar redes sociais? Dá até para criar um robô que te avisa quando alguém faz alterações em um site – como atualizar um processo no sistema online de algum setor do Judiciário.

Aprender a programar pode parecer algo muito ambicioso e, durante os primeiros passos, distante do cotidiano jornalístico. Entretanto, no caminho você percebe que as linguagens existem para solucionar vários tipos de problema, e isso inclui tarefas que são comuns em nossa profissão.

Além disso, como vimos no exemplo anterior, hoje em dia se encontram histórias nos mais diferentes lugares e formatos. É impossível saber lidar perfeitamente com qualquer coisa que caia no seu colo, mas é ótimo estar preparado para a maior variedade possível de pautas e desafios.

Na minha especialização em jornalismo de dados, na Universidade de Columbia, tive uma aula com Larry Buchanan, editor gráfico do The New York Times. Palavras dele:

“É fácil contratar bons repórteres, bons infografistas ou bons programadores. Raro é encontrar um profissional com a mistura maluca de habilidades que permite fazer um pouco de tudo isso, mesmo que ele não seja o melhor em nenhuma área”.

Não sou eu que digo isso. É um editor do The New York Times.

O COMPUTADOR É BOM EM COISAS QUE SEU CÉREBRO NÃO É

Um computador é rápido, preciso e disciplinado, capaz de cumprir quase qualquer tarefa que você mandar em alta velocidade e sem titubear. Ele, porém, não é criativo: é incapaz de encontrar soluções para problemas complexos por conta própria.

Você, humano, ao contrário, é criativo, capaz de pensar fora da caixa e sabe resolver problemas mais delicados. Só que, por mais regrado que seja, você não é capaz de se concentrar por períodos longos de tempo, é lento e impreciso – pelo menos se comparado com uma máquina.

Parece que essa dupla se complementaria bem, certo? Aprender a usar essas características de um computador a seu favor pode minimizar a chance de cometer erros em algumas das tarefas mais chatas do jornalismo. Na redação, uma vez tive de organizar o calendário dos Jogos Olímpicos em um sistema interno – um esforço maçante de copiar e colar itens de um documento para outro. Obviamente, depois de algumas horas, comecei a cometer vários erros. Meu cérebro já não dava mais conta de tanta repetição.

Se, na época, eu já soubesse um mínimo de programação, poderia elaborar um script capaz de fazer isso por mim em um décimo do tempo e com muito mais precisão. Além disso, estaria livre para fazer coisas mais difíceis e mais recompensadoras.

Mesmo em tarefas menores que essa, automatizar processos aumenta seu nível de confiança e evita o trabalho chato de consertar erros. Uma vez, passei um bom tempo reunindo as diferentes planilhas com resultado das Eleições Municipais, divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, em um único documento do Excel. Eram 27 arquivos, relativamente pouca coisa. Fiz tudo a mão, copiando e colando. Logicamente, coloquei algumas linhas no lugar errado, esqueci de outras e depois perdi algumas horas arrumando tudo. Dava para fazer tudo em menos de trinta segundos simplesmente digitando uma linha de instruções no prompt de comando.

MUDE SUA MANEIRA DE PENSAR

Pode ser, porém, que você não queria mexer com dados, não queira fazer gráficos, não queira desenvolver sites, não queira automatizar coisas chatas. Você é o repórter do pé no chão, bloquinho na mão, sola de sapato gasta. Jornalismo raiz. Afirmo que, até mesmo para você, aprender a programar pode ser útil.

Minha experiência – que, como disse lá no começo, é pequena – mostrou que, em essência, programar é dividir problemas em etapas menores. Antes de digitar qualquer linha de código, procuro definir um objetivo claro, esboçar um caminho para chegar até lá e só então executo todas as pequenas divisões que vão, finalmente, levar a tarefa a cabo.

Esse tipo de raciocínio é útil até mesmo para escrever um texto. Eu, pelo menos, consigo ordenar minhas ideias de maneira mais eficaz e intuitiva depois do contato com esse tal “programmatic thinking”. É uma mentalidade que ajuda a detectar padrões, a melhorar a organização pessoal e a sistematizar informações de maneira lógica. Aliado à inquietude do jornalista que está sempre de bloquinho na mão, é algo poderoso.

MAS POR ONDE EU COMEÇO?

Espero ter te convencido de que vale a pena aprender a programar. Agora, para ser justo, preciso dizer por onde começar. Novamente, tudo isso é baseado na minha curta experiência e em materiais que funcionaram para mim. Porém, nem todos são voltados especificamente para jornalistas: às vezes, é difícil conectar os pontos, mas a maioria dos princípios apresentados são, sim, úteis para repórteres.

Vou recomendar apenas recursos para aprender Python e SQL, as duas linguagens que mais domino – e que se parecem com uma língua de verdade, dessas que as pessoas usam para conversar, algo que torna o início do processo menos assustador.

Começo pelo Python: para que serve? Para praticamente tudo. É uma linguagem com uma comunidade bastante ativa e que tem uma infinidade de bibliotecas – pacotes de funções complementares – que podem salvar sua pele. Você pode fazer desde análises estatísticas simples até ferramentas de machine learning, passando por visualizações de dados e web-scrappers (programas que retiram informações de sites de forma automática – uma espécie ultrapoderosa de CTRL-C + CTRL-V, em uma simplificação grosseira).

Uma boa introdução é o livro “Automatize Tarefas Maçantes com Python”, que serve tanto com um bê-á-bá da linguagem quanto como uma coletânea de macetes para economizar tempo e prevenir fios de cabelo branco – nada especificamente jornalístico, porém.

Na Amazon, um exemplar em português custa R$ 70, mas a obra está disponível de graça na internet, em inglês. O material também cobre expressões regulares (um tipo de CTRL-F mais elaborado, com base em padrões de texto, que vai te dar muitos nós mentais, mas é extremamente útil) e web scraping, ferramentas que uso quase todos os dias.

Um curso disponível gratuitamente no Coursera, Programming for Everybody, também é um bom começo caso você precise de explicações mais humanas – o professor Charles Severance, da Universidade de Michigan, é extremamente didático e sabe explicar bem tanto os fundamentos da linguagem quanto do funcionamento de computadores.

Já o SQL é geralmente a primeira parada além do Excel para quem quer avançar no jornalismo de dados (embora o Python tenha uma biblioteca poderosíssima para isso, chamadas Pandas – se você se der bem com a linguagem logo de cara, vale procurar mais sobre).

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) oferece periodicamente um curso introdutório. Entendendo o básico, já dá mexer com os arquivos gigantescos que são publicados pelo IBGE, pelo TSE ou pelo MEC – aqueles que travam o Excel a fazem seu computador suar bastante.

Também vale a pena entrar em contato com as pessoas que unem as pontas de jornalismo e programação na prática, profissionalmente. Elas costumam ser muito acessíveis, juro!

Um bom lugar para se estar, se você domina o inglês, é uma lista de e-mails chamada NICAR (National Institute for Computer Reporting), divisão nerd do IRE (Investigative Reporters and Editors, uma associação de jornalistas dos Estados Unidos). Foi de lá, aliás, que tirei algumas dessas dicas: simplesmente mandei um e-mail pedindo sugestões de como começar a programar.

Rodrigo Menegat
Jornalista formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), atualmente cursa o Lede Program, uma especialização em jornalismo de dados e programação da Universidade de Columbia, em Nova York. Pensa que bom jornalismo exige ao menos três coisas: transparência, método e inspiração.