Alberto Dines, da revolução no JB à devoção a Stefan Zweig

Alberto Dines (1932-2018) foi revolucionário no seu tempo, desafiou censura militar, ousou criticar jornalistas e veículos. Morto neste 22 de maio, era mais do que prega o senso comum. Como mostra esta homenagem:

“É com imensa tristeza que comunicamos o falecimento do idealizador e fundador da CASA STEFAN ZWEIG. Nossa melhor homenagem é continuar a sua obra.
Saudades, Dines!”

É uma despedida que surgiu logo após as notícias sobre a morte de Alberto Dines começarem a circular pela internet. Como outras que vieram em escala.

O Observatório da Imprensa, programa que o jornalista comandava, também publicou sua homenagem a ele no seu perfil no Facebook:

“É com profunda tristeza que a equipe do Observatório da Imprensa comunica o falecimento de seu fundador, Alberto Dines (1932-2018), na manhã de hoje no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Estamos preparando uma edição especial sobre o legado do Mestre Dines a ser publicada em breve.”

E assim pipocaram os obituários do JB, Folha, G1, Estadão, Globo, El País (o melhor dos obituários, ainda que nada tão impressionante), a grande mídia saudava um dos jornalistas mais importantes do século 20.

Dines foi o responsável por um dos períodos mais icônicos do jornalismo brasileiro, de meados dos anos 1960 aos 1970, quando dirigiu a Redação do Jornal do Brasil, hoje redivivo nas plataformas impressa e digital. Como não lembrar da primeira página que ele publicou em 1973, sem manchete, como ordenava os generais, para tratar da morte de Salvador Allende?

A icônica capa do JB sem manchete

Também foi pioneiro na posição de ombudsman e na crítica de mídia no Brasil, quando escreveu a coluna Jornal dos Jornais na Folha, em 1975, e depois, com a criação do Observatório da Imprensa.

Bom, isso tudo está nos obituários produzidos desde o fim da manhã de 22 de maio — e é impressionante como o primeiro parágrafo de qualquer obituário do New York Times é superior a qualquer texto completo escrito no Brasil sobre a morte de alguém.

Alberto Dines: devoto e guardião

O que move este texto é o que a epígrafe anuncia, um lado até bem conhecido de Dines, mas que submerge em momentos como este, em que o jornalista grita diante de sua história.

Dines era um dos maiores especialistas em Stefan Zweig, escritor austríaco que se exilou no Brasil na década de 1940. O jornalista pesquisou e estudou tanto a obra como a vida do autor para se tornar referência internacional.

Por isso, a Casa Stefan Zweig prestou a homenagem a Dines, um devoto do escritor e criador do espaço localizado onde o austríaco morou no fim de sua vida, em Petrópolis (RJ).

O trabalho de Dines foi muito além de escrever uma biografia sobre Zweig, “Morte no Paraíso – A Tragédia de Stefan Zweig” (Rocco) — por ela, o jornalista foi chamado de “guardião” do legado do austríaco.

Dines coordenou a coleção de Zweig publicada pela editora Zahar. Escreveu prefácios e posfácios, organizou e selecionou textos para novas traduções.

Zweig: Brasil, o país do futuro

Zweig (1881-1942) nasceu em Viena e viveu o auge da capital austríaca como polo cultural e intelectual. Escreveu romances, biografias, ensaios, entre outros gêneros.

Judeu, deixou a Áustria logo após a chegada de Hitler ao poder. Passou por Londres e Nova York antes de se decidir pelo Brasil, onde viveu e escreveu o ensaio “Brasil, O País do Futuro”. Em 1942, desencantado com os rumos que a guerra tomava na Europa, cometeu suicídio com a mulher, na casa onde moravam, em Petrópolis.

Por seu trabalho dedicado a Zweig, Dines foi homenageado com o Austrian Holocaust Memorial Award e Austrian Cross of Honour for Science and Art.

“Zweig nos deu um sobrenome: ‘país do futuro’. Mas foi mal entendido e acabamos incorporando isso de forma simplista. É uma pena que os últimos governos não tenham movido uma palha para resgatar sua obra”, disse Dines a O Globo em 2013.

Já em entrevista ao The New York Times, para falar sobre o interesse que Zweig voltava a despertar, movimento chamado por ele de Zweigmania, Dines declarou: “Talvez seja melhor pensar em Zweig como um apóstolo do pacifismo, tolerância e companheirismo, que, no final, foi subjugado pela ascensão do obscurantismo. Cada geração tem seu próprio Zweig e isso é nosso, fruto de uma nostalgia e um desejo imprecisos”.

Stefan Zweig na sua casa em Petrópolis | Foto: Centro Stefan Zweig de Salzburg

Para ler Alberto Dines

  • O Papel do Jornal (Summus)
  • Morte no Paraíso — A Tragédia de Stefan Zweig (Rocco)
  • Vínculos de Fogo (Companhia das Letras)
  • Os Idos de Março e a Queda em Abril (José Álvaro Editor)
  • E Por Que Não Eu? (Codecri)

Para ler Stefan Zweig

  • Três Novelas Femininas (Zahar)
  • O Mundo Insone (Zahar)
  • Autobiografia: O Mundo de Ontem (Zahar)
  • Brasil, Um País do Futuro (L&PM)
  • Novelas Insólitas (Zahar)
Ricardo Ballarine
Ricardo é entusiasta de um jornalismo inovador e que explora todas as possibilidades narrativas. Dedicou parte da carreira a treinar e capacitar jornalistas. Paulista de origem, hoje vive em Belo Horizonte (MG). Não só tem fé no jornalismo como acredita que ainda há um caminho imenso a ser explorado. Fale com ele no [email protected]