18 dicas para uma boa reportagem sobre crianças e adolescentes

Quando a pauta envolve crianças e adolescentes, há uma série de cuidados que o jornalista deve levar em consideração. Para fazer um bom jornalismo, é preciso não apenas noticiar e reportar fatos e informações, mas trazer à luz assuntos com muita responsabilidade, além de contextualizar o problema na sociedade.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tem em sua base a proteção integral e reforça o princípio de crianças e adolescentes como prioridade absoluta. A Constituição Federal prevê o dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e o adolescente com absoluta prioridade o direito à saúde, alimentação, cultura, dignidade, respeito, liberdade, convivência familiar e comunitária.

Para melhor orientar jornalistas por todo o país, a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) tem uma sessão de dicas para cobertura jornalística que vai desde orientações de políticas públicas e orçamento até situações de vulnerabilidade infantojuvenil. Aqui, separamos algumas dicas gerais para a produção de uma boa reportagem:

Orientações da Andi para cobertura de assuntos com crianças e adolescentes:

1. Entrevistar várias fontes é essencial para uma reportagem de qualidade. Não é preciso incluir tudo no texto, mas quanto mais pessoas você ouviu, maior será a capacidade de contextualizar o assunto e construir uma visão mais ampla sobre o problema.

2. Consultar o ECA e a legislação ajuda a fundamentar a abordagem do problema. No ECA, por exemplo, estão descritas as punições para atos infracionais praticados por menores, enquanto no Código Penal estão as punições para crimes cometidos contra eles.

3. Não trate presos e acusados como criminosos. O acusado só é considerado culpado após a sentença da Justiça. Jornalista não é juiz. Seja rigoroso(a) na apuração: é possível causar danos sérios à integridade de pessoas por julgamentos precipitados.

4. Não se limite ao lead, amplie a apuração. Busque informações que ajudem na compreensão do problema em um contexto mais amplo no País e até mesmo no cenário internacional. Estatísticas fazem muita diferença e ajudam a dimensionar a questão.

5. Atribua toda informação apurada. Dados devem ser apresentados junto com as fontes de pesquisa.

Escrever sobre crianças e adolescentes exige cuidado e atenção:

6. É preciso ter sensibilidade. Ao contar a história de alguém, esse protagonista pode ser a personificação de um problema ou driblar a escassez de estatísticas. É fundamental não vitimizar o seu personagem.

7. As denúncias chamam a atenção para os problemas sociais, mas é dever do jornalista apresentar soluções que possam resolver o problema apresentado. Assim, deve-se trazer outras percepções para enriquecer o debate público e não apenas criar uma onda de pessimismo com os problemas.

8. Não faça generalizações. Ao mesmo tempo que existem autoridades corruptas, também há gente comprometida na defesa da criança e do adolescente.

9. Não desenhe um perfil de vilão ou herói da história, pois isso compromete o debate público produtivo.

10. Sensacionalismo empobrece o texto e contribui para revitimizar os menores. Esse tipo de abordagem causa na sociedade um sentimento de impotência, além de banalizar e naturalizar o problema.

11. Inclua serviços que contemplem o problema apresentado endereços, telefones, e-mails, sites de serviços, como o Conselho Tutelar, Ministério Público, organizações da sociedade civil.

12. Acompanhe os desdobramentos da reportagem. Assim é possível cobrar medidas das autoridades responsáveis e mostrar ao público os resultados gerados pela publicação do problema.

13. Números são bons pontos de partida, mas sozinhos não traduzem a problemática. Contextualize-os, faça comparações (entre cidades, regiões, países, etc), mostre a evolução ao longo do tempo. Estatísticas não são uma verdade absoluta, por isso, converse com especialistas e organizações. Ouça a população. Verifique também se não há outras fontes que confrontem ou complementem os dados. Ou seja, humanize a história.

Como usar imagens com cautela, e como dar fôlego à reportagem sem elas:

14. Para enriquecer a matéria, em casos que não é possível usar imagem ou fotografia, a edição pode criar infográficos, mapas, desenhos, ilustrações e diagramação diferenciada.

15. Identificar crianças ou adolescentes só deve ser feito em três circunstâncias: quando ela exercer sua liberdade de expressão e seu direito de ter a opinião ouvida; quando ela é protagonista de programas de ativismo ou mobilização social; quando participa de programas psicossociais e a menção do nome é parte do desenvolvimento saudável.

16. É importante tomar cuidado com os detalhes, tanto no texto quanto nas imagens, que possam levar à identificação do menor, de familiares ou do local onde mora – mesmo que a divulgação seja autorizada pela família. Use nome fictício para preservar a identidade da criança.

17. Dos cuidados a serem tomados na veiculação de imagens de crianças e adolescentes, é importante: obter autorização de uso de imagem; explorar ângulos diferenciados de detalhes ou contraluz para preservar a identidade do menor; cuide com o cenário e sons pois eles podem interferir sobre a criança e sua história. Não menos importante: evite usar imagens erotizadas de crianças.

18. A exposição do agressor só deve ocorrer se for relevante para a informação. Lembrando que é importante evitar a divulgação de informações que possam expor as vítimas a risco, vexame e constrangimento.

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Bruna Teixeira
Apaixonada por jornalismo, acredita na profissão como uma ferramenta de transformação social e pessoal. Entusiasta do jornalismo digital e com vivência em marketing digital, Bruna já passou pela redação da BandNews FM, Rede Massa, e também pela Gazeta do Povo – onde contribuiu para a apuração da série “Crime Sem Castigo”, vencedora do Esso em 2013. Fale com ela pelo [email protected]